Sábado, 2 de Julho de 2022

A debilidade cultural e teológica

Na sexta feira passada, no final do retiro em Fátima, a Conferência Episcopal divulgou uma Nota sobre os resultados do referendo do aborto. Antes de fazer uma breve comentário, convém fixar alguns números. Em Portugal, o número dos que se abstiveram (56,39) foi superior aos votantes (43,61). Destes, votaram «sim» (59, 25) e votaram «não» […]

Na sexta feira passada, no final do retiro em Fátima, a Conferência Episcopal divulgou uma Nota sobre os resultados do referendo do aborto. Antes de fazer uma breve comentário, convém fixar alguns números.

Em Portugal, o número dos que se abstiveram (56,39) foi superior aos votantes (43,61). Destes, votaram «sim» (59, 25) e votaram «não» (40.75). No referendo de 1998 sobre o mesmo assunto, o «não» havia sido de 51, 30 e o «sim» de 48,70. Em menos de dez anos inverteram-se as posições.

Na nossa diocese, coincidente com o distrito, abstiveram-se 64,84, um número superior à média nacional; dos que foram votar, disseram «não» 61,89, e votaram «sim» 38,11, números igualmente acima da média nacional. Ou seja, em Vila Real o «não» venceu por larga maioria em todos os concelhos, como já havia vencido em 1998, ainda que passando de 70,03 % para 61,89 %. As vitórias foram mais elevadas em Mondim de Basto (74%), Ribeira de Pena (71%) e Valpaços (71 %). Dentro de cada um dos catorze concelhos, o número de votantes «sim» foi elevado nas três cidades de Régua, Vila Real e Chaves, e, se compararmos o número dos votantes «sim» nos referendos de 1988 e de 2007, esse número cresceu muito em Boticas, Montalegre, Ribeira de Pena, Sabrosa, Chaves e Santa Marta de Penaguião. Em síntese, houve uma subida de interesse pelo referendo e uma mudança significativa do sentido do voto do eleitorado que, mantendo a vitória do «não» de 1988, se deixou arrastar para o «sim», com deslocação de votantes adultos e a chegada de novos eleitores, muitos deles jovens.

Não se pode dizer que o «não» seja católico e rural e o «sim» ateu e «urbano». Dentro do mesmo concelho houve freguesias com um cruzamento do sentido do voto, ainda que o «não» seja mais frequente nos meios praticantes, e o «sim» mais elevado nos meios urbanos e menos praticantes.

Se não estivessem em causa valores éticos fundamentais, a minha reflexão terminaria aqui, dando os parabéns aos vencedores e aceitando pacificamente a vontade da maioria. Mas como este voto traz objectivamente consigo a afirmação ou negação desses valores, e a orientação da Igreja ia para o «não, a reflexão deve continuar.

Por essa razão, devo declarar a minha alegria pela vitória do «não» na diocese e felicitar os grupos e as pessoas que publicamente se empenharam no esclarecimento das consciências, trabalho que deve prosseguir nas pessoas e nos grupos porque mudou o contexto onde a Igreja é chamada a exercer a sua missão.

Na Nota pastoral já dada a conhecer, diz-se que o referendo manifestou uma cultura que «não está impregnada de valores éticos fundamentais que devem inspirar o sentido das leis, como é o caso do carácter inviolável da vida humana, aliás consignado na nossa Constituição», e o comunicado aponta como causas dessa mutação cultural a «mediatização globalizada das maneiras de pensar e das correntes de opinião, as lacunas na formação da inteligência que o processo educativo não prepara para se interrogar sobre o sentido da vida e as questões primordiais do ser humano, o individualismo no uso da liberdade e na busca da verdade, a relativização dos valores e princípios que afectam a vida». Por outras palavras, o que se diz nos meios de comunicação social tende a tornar-se regra de pensamento, a escola não educa para uma reflexão até às últimas consequências, a verdade e a liberdade são aquilo que interessa a cada um e ao grupo. É o triunfo do imediatismo, do pensamento leve da modernidade, de que, aliás, se falou abertamente. Essa debilidade do pensamento é que é o grande problema.

Concretizando: a vida humana era na tradição cultural portuguesa um pilar indelével. Matar não era aceite como recurso legítimo. Talvez por esse fundo cultural, a pena de morte foi muito cedo afastada dos textos legais portugueses. Ainda recentemente foi tomado como cartaz dessa tradição o gesto de Aristides de Sousa Mendes. Também a Igreja Católica, na última edição do seu Catecismo, exclui da sua doutrina o único caso de recurso à morte directa que ela aceitava como legítimo: castigar um delinquente contumaz e judicialmente provado. Ora a vitória do «sim» no referendo veio revelar o desvio da tradição cultural portuguesa: admitiu-se que matar inocentes pode ser um meio legítimo para resolver problemas sociais. Mesmo que o número de abortos venha a ser reduzido pela consulta imposta à mulher grávida, a admissão do aborto como caminho legítimo é uma machadada na raiz cultural, um veneno que destrói uma cultura, o tecido jurídico, a reflexão natural. Daí em diante esse veneno tende a estender-se. É uma questão de tempo.

O primeiro sector envenenado foi a medicina. O médico era a pessoa que trazia consigo a garantia da segurança do berço, do heroísmo do soldado. Mesmo quando não evitava a morte, e isso acontecerá sempre, sabia-se que nunca era um aliado da morte. Admite-se agora que matar possa ser tarefa do médico invocando alívio de problemas de uma cliente!

Outro sector a ser envenenado é o direito. A inviolabilidade da vida humana constituía uma pedra basilar da estrutura jurídica. As agressões físicas continuam a ser duramente castigadas, mas aceita-se agora que matar directamente um inocente possa ser um direito entre outros. Aquilo que constava da ideologia marxista e das ditaduras, cujo absoluto é unicamente a vitória da classe e do partido do chefe, passa agora para códigos democráticos.

Algo semelhante se diz dos profissionais de saúde: matar pode ser considerado um acto de saúde.

E o veneno chegou à estrutura mental de alguns cristãos. Naquela Nota da Conferência Episcopal escreve-se que o referendo «pôs a descoberto alguma fragilidade do processo evangelizador, mormente em relação aos jovens». Faltam critérios de pensar catolicamente. «Para os católicos, a verdade revelada transmitida pela Igreja no quadro de uma tradição viva é elemento fundamental no esclarecimento das consciências». Ora houve católicos «que, no aceso deste debate, se afastaram da verdade revelada e da doutrina da Igreja».

Na Nota dos Bispos, convidam-se os grupos a prosseguirem a militância educativa, os médicos e profissionais de saúde a usarem o direito de objectores de consciência, e os cristãos «a examinarem, no silêncio e tranquilidade do seu íntimo, as exigências da fidelidade à Igreja a que pertencem e as verdades fundamentais da sua doutrina». Mesmo não tendo fé na Igreja, há pessoas que gostam de estudar as suas orientações, «sempre é a única instituição com mais de dois mil anos de experiência com os homens», dizem. Sintomático é que haja cristãos presentes em movimentos e obras e catequistas e talvez mesmo sacerdotes, com debilidade em teologia fundamental.

Para todos, vem a propósito um texto do Papa João Paulo II, incluído num documento pontifício de Julho de 2006: «Com a autoridade que Cristo conferiu a Pedro e aos seus sucessores, em comunhão com os bispos, declaramos que o aborto directo, isto é, querido como fim ou como meio, constitui sempre uma desordem moral grave, enquanto morte deliberada de um ser humano inocente. Tal doutrina é fundada sobre a lei natural e sobre a Palavra de Deus escrita, é transmitida pela tradição da igreja e ensinada pelo magistério ordinário e universal. Nenhuma circunstância, nenhuma finalidade, nenhuma lei do mundo poderá jamais tornar lícito um acto que é intrinsecamente ilícito porque contrário à lei de Deus escrita no coração de cada homem, reconhecível pela própria inteligência e proclamada pela Igreja».

 

Joaquim Gonçalves, Bispo de Vila Real

-PUB-

APOIE O NOSSO TRABALHO. APOIE O JORNALISMO DE PROXIMIDADE.

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo regional e de proximidade. O acesso à maioria das notícias da VTM (ainda) é livre, mas não é gratuito, o jornalismo custa dinheiro e exige investimento. Esta contribuição é uma forma de apoiar de forma direta A Voz de Trás-os-Montes e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente e de proximidade, mas não só. É continuar a informar apesar de todas as contingências do confinamento, sem termos parado um único dia.

Contribua com um donativo!

Mais lidas

A Imprensa livre é um dos pilares da democracia

Nota da Administração do Jornal A Voz de Trás-os-Montes

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Subscreva a newsletter

Para estar atualizado(a) com as notícias mais relevantes da região.