Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2021
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

A epidemia

Por volta de 1877, na freguesia de Mateus, proliferou nas plantações de milho uma epidemia originada por um verme que as destruía por completo. O povo na sua crença fervorosa pediu a frei Vicente que rogasse a Deus invocando a Sua proteção divina. Ninguém temia a morte porque ela era inevitável. As pessoas temiam sim […]

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Por volta de 1877, na freguesia de Mateus, proliferou nas plantações de milho uma epidemia originada por um verme que as destruía por completo.

O povo na sua crença fervorosa pediu a frei Vicente que rogasse a Deus invocando a Sua proteção divina. Ninguém temia a morte porque ela era inevitável. As pessoas temiam sim a fome, as doenças, mas acima de tudo as epidemias cíclicas.

Aureolado de fé, o frei orou, levantando bem alto as mãos abertas para o céu.

A sua voz profunda era enigmática, profética mesmo. Os olhares rasgavam-se contemplativos, abarcando todo o espaço celeste.

Pelo que foi dito e testemunhado, as preces foram escutadas, pois o verme desapareceu, cessando o mal nesse ano e nos anos seguintes.

Ali mesmo frei Vicente foi glorificado pela população que o venerou, olhando-o na grandeza da sua alma e na força poderosa da sua fé.

Nesse tempo, Mateus era uma aldeia feita de casebres de lascas e granito e nos rostos havia sinais de pobreza. No entanto, a alma de cada habitante era modelada de poesia pura porque a música enobrecia e alimentava e porque à volta da aldeia havia campos de vinha e searas, terras despidas e capelinhas perdidas.

Ali se descobria a grandeza do planeta porque se sentia de perto o cheiro da terra e o infinito do céu e se plasmava facilmente o encanto do luar e se ouviam com comoção os sinos a anunciarem a morte de alguém ou rejubilando como voz de noiva a chamar o povo para a missa ou batizado ou para o enterro de um bebé.

Depois do milagre romperam as danças bem animadas e as raparigas deixavam-se embalar ao ritmo das valsas, marchas e polkas tocadas por músicos da banda da terra.  

Diziam os mais velhos que nunca os músicos tocaram com tanto frenesim e alegria. O baile prolongou-se até que os galos na Rechã anunciassem o romper da aurora… as pernas de alguns dançarinos já se lhes negavam a mexer e algumas moçoilas mais fogosas arfavam na respiração do cansaço e da felicidade… as que não tinham conseguido bailador saíram do largo angustiadas à espera de um afago consolador da mãe protetora que andava sempre por perto, vigiando o desenrolar dos acontecimentos. Embezerrada ficou uma cachopa quando um rapazola bem aprumado a trocou no meio de uma dança por uma outra com ar bem atrevido.

Depois do baile, tudo ficou mais silencioso e calmo. Os primeiros alvores surgiram num céu que se apresentava limpo. Os músicos recolheram as suas casas. Alguns instrumentos ficaram num bandalho… O bombo foi o mais sacrificado com a pele rasgada pelo excesso de pancadaria do tocador. As palhetas dos clarinetes, depois de tanto chinfrim também elas ficaram estaladas, estilhaçadas pelo entusiasmo desabrido dos tocadores. 

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