IgrejaA fé e a robustez intelectual

A fé e a robustez intelectual

1- Ouvi há dias na RTP a entrevista que o escritor António Lobo Antunes deu à jornalista F. C. Ferreira. A dada altura da conversa, preenchida mais com desabafos de Lobo Antunes que com ideias, o celebrado escritor, que é médico psiquiatra, confidenciou o abalo que a sua formação católica familiar sentiu ao ver nascer […]

1- Ouvi há dias na RTP a entrevista que o escritor António Lobo Antunes deu à jornalista F. C. Ferreira. A dada altura da conversa, preenchida mais com desabafos de Lobo Antunes que com ideias, o celebrado escritor, que é médico psiquiatra, confidenciou o abalo que a sua formação católica familiar sentiu ao ver nascer crianças com graves deformações genéticas, facto que lhe pareceu beliscar a Providência de Deus.

Esse desabafo é semelhante ao de Alberto Camus, escritor francês, que dizia ter perdido a fé ao ver na estrada uma criança esmagada por um camião, sem culpa de ninguém – nem da criança nem do trabalhador.

A reflexão que aqui apresento não pretende ser uma resposta a tais desabafos, mas quer ser conforto para pessoas perturbadas por casos semelhantes, como aquela mãe da Campeã que deixou de ir à missa três domingos seguidos por ver morrer de cancro uma sua filha, mãe de duas crianças, apesar das orações que ela, mãe e avó, dirigira fervorosamente a Deus. Não perdi a fé, diz ela, mas fiquei desorientada algum tempo.

2 – O mal é sempre uma surpresa dolorosa, e é ainda maior quando não lhe encontramos lógica. Seja o mal físico (a descarga eléctrica de uma trovoada que dizima um rebanho, o ciclone que destrói alpendres e arrecadações, o abalo sísmico que causa milhares de vítimas), seja o mal moral (roubo da pequena reforma de um idoso, agressão violenta de uma criança, abandono de um sinistrado na estrada) – todo o mal nos deixa inquietos em busca do responsável e, nessa inquirição mental, subimos subtilmente até Deus e somos tentados a perguntar porquê: «Não podia Deus evitar aquelas desgraças, Ele que, por suposto, é bom e poderoso»?

É muito velho este desabafo. A Bíblia conta que os amigos de Job ficaram estarrecidos e mudos sete dias e sete noites perante a desgraça que sobre ele desabara, ele que era um homem bom.

Merecem o maior respeito as lágrimas de todas as mães que choram a morte de seus filhos, os lamentos de todos os explorados, o grito de todos os infelizes. A atitude dos dois escritores vai mais longe, salta do foro psicológico para o plano da reflexão e constrói uma reflexão que não se faz com as lágrimas dos olhos nem com o fígado. Essa mistura do sentimento e da razão é frequente nos artistas, e acabam por transformar em lógica racional o que não passa de sensibilidade. Pior ainda será misturar descarados interesses comerciais com reflexões pseudocientíficas sobre Jesus Cristo. De resto, fantasiar romances sobre figuras históricas e factos civilizacionais é um modo de enxovalhar a história por quem não tem qualquer competência na matéria. Nessas áreas não se pede só uma inteligência robusta, mas honestidade de processos e senso.

Para quem tem fé, estes factos convidam a uma «fé pensada».

3 – Perante o mal do mundo, a clássica defesa de Deus, chamada teodiceia, costuma esgrimir o argumento de que o mundo é uma criatura, com leis físicas dos corpos pesados e dos líquidos e gasosos, da acústica e da electricidade, da hereditariedade e da gravitação. Tais leis verificam-se necessariamente, e é essa constância que nos permite trabalhar a terra, construir prédios, viajar na terra, no mar e no ar, estruturar a ciência e a técnica, programar o futuro e viver com alguma segurança. Ao homem foi concedido o dom especial de reflectir e decidir, sabendo antecipadamente que as suas decisões são seguidas dos respectivos efeitos e, desse modo, experimenta ser senhor e, de algum modo, construtor do mundo.

Se Deus andasse permanentemente a alterar e a suspender as leis da natureza e a tapar os buracos causados pela nossa liberdade, nem se podia trabalhar (pois tudo era incerto) nem ao homem se podia atribuir qualquer senhorio (pois seria quase um palhaço). Por isso, o filósofo alemão Leibniz assumiu exemplarmente no séc. XVIII esta defesa de Deus e até considera a estrutura deste mundo como a melhor possível.

4 – O lapso dos artistas nasce, frequentemente, de um excesso de sentimento.

Há outro lapso semelhante ao dos artistas: é o dos cientistas ao tomarem a sua metodologia laboratorial como a última e mais rigorosa. É o caso de António Damásio, famoso investigador do cérebro humano, que, em obra recente, classifica uma zona do cérebro humano como «a zona criadora de Deus». Ao lado da zona da visão, da audição e da linguagem, da locomoção, diz ele que há uma zona de Deus: «enquanto a evolução do cérebro não atingiu uma certa complexidade, não havia Deus». «Deus nasceu nesse momento», conclui.

Aqui não são os sentimentos que perturbam a razão, é a razão que fica prisioneira de um método de trabalho. É um lapso de epistemologia, confundindo condição de conhecimento com criação da realidade. Certamente que sem a estrutura óptica não se captam as cores do jardim nem se admiram os olhos dos filhos, e sem o tímpano do ouvido não se ouve a voz do namorado nem a música de Bach, e sem a complexidade biológica do cérebro não se pode reflectir em profundidade. Mas nem as flores do jardim nem os olhos dos filhos nem as partituras musicais nem os números nasceram nessa hora.

5 – Chegados aqui, e assente que o mundo físico tem a sua beleza e lógica internas que ainda nos escapam em muitos pormenores, a reflexão sobre o relacionamento do mundo e do homem com Deus pede uma inteligência robusta e disciplinada. Mais: a defesa de Deus anda de mãos dadas com a defesa da inteligência.

À defesa e descoberta de Deus pela reflexão humana levada a cabo pela teodiceia clássica, o cristão tem a alegria de poder acrescenta um contributo histórico ao anunciar que o próprio Deus quis viver a nossa condição de criatura: ao vir ao mundo, assumiu as limitações das leis físicas (o mar e o vento, a fome e a sede) e as consequências da liberdade humana (a perseguição injusta e a calúnia, o sofrimento indevido e a morte humilhante). Nem derrubou as leis físicas nem os dramas da liberdade humana, assumiu-as como obra do Pai Criador, pediu os homens entreajuda para as surpresas e fracassos históricos e garantiu que, mais tarde, para além do tempo histórico, fará a revelação da meada do mundo que agora só conhecemos em enigma.

Ao homem moderno falta esta paciência de esperar por essa fase posterior, a eternidade, e reivindica para aqui e agora a prestação de contas. Como Deus não cede a tal capricho, o homem grita que o mundo é absurdo e que Deus não é bom nem justo nem poderoso. Mais violentamente, que não existe. Em debate com um representante dessa reivindicação sartriana, o filósofo da Sorbonne J. Guitton lembrou que, ao retirar arrogantemente a parcela da eternidade, o homem é que torna as contas insolúveis. Afinal, o Deus que essa cultura deseja seria um «deus caseiro», pequenino, um «deus de barbas». Esse, sim, não existe.

 

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