Os ciganos e os cães aferroados pelas pulgas pareciam incitar o homem que, naquele recinto, queria esquecer as tristezas do matrimónio, por a mulher, de nome Joaquina, lhe ser infiel.
O felizardo era um ricaço chegado do Brasil. Irritado e bêbado, o Abílio pulava, tateando a sua sombra. Queria agarrá-la, mas ela esquivava-se parecendo brincar com ele. E o Abílio pensou e coçou a cabeça desistindo.
O Abílio, de tanta bebida, acabou estatelado no chão deleitado nos sons encornetados da charanga cujos músicos àquela hora da tarde com um calor escaldante estariam também eles já bem estrumados da bebida.
Ao lado do Abílio estava uma burra propriedade de uma cigana, que parecia troçar da desgraça do homem, agitando a cabeçona, vendo-se os dentes gigantes que pareciam desdenhar.
A cigana, dona da burra, apresentava-se com roupa exposta à indecência, dir-se-ia meia roupa, descalça, cabelos desgrenhados e sujos, seios ao léu, convidando alguns mirones a olhares malandros… o abade ao passar ali para a procissão desviou bem os olhares, fugindo à tentação promíscua do pecado. Aliás o padre era um santo no dizer sábio da população.
Ao ver assim o animal, a cigana gargalhava em sintonia com a burra, possuída de loucuras e histeria.
Ao fundo do recinto, a procissão seguia o seu curso, ouvindo-se das mulheres rezas penitenciadas ao Senhor dos Passos. O Abílio mesmo trôpego tentou segui-la colocando-se atrás do andor do santo.
Olhava-o de boca aberta, absorto com o seu rosto sofrido. E o santo parecia ciciar palavras que na imaginação do Abílio, lhe queriam dizer para ir para casa guardar a sete chaves a mulher das garras do “brasileiro” endinheirado. O Abílio sufocado de interrogações, sai dali serpenteando-se em movimentos rápidos e decididos. E pensou: “ se não foi à procissão está no leito, entregue às trevas da fraqueza da carne…” Assim foi. Entrou e deparou os dois entretidos, aparentemente só em beijos multiplicados e inofensivos.
Ficou inativo, amolecido do coração e corre para a procissão que ainda estava a meio. O prior falava galvanizado num exaltante sermão com mulheres ajoelhadas e purificadas na fé.
O Abílio ajoelhou também, implorando ao Senhor dos Passos a partida breve do ricaço para o Brasil porque a Joaquina estaria perdoada, porque a amava incondicionalmente, e porque o perdão é o sinal maior da vida de Cristo na Terra.
Ao chegar à igreja, a banda tocou majestosamente uma marcha divina que amolecia os corações… e o coração do Abílio ficou também ele amolecido, rendido à força insondável da fé e do perdão.



