Quarta-feira, 6 de Julho de 2022
Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

A freira Isabel

Todos os dias as conversas eram as mesmas, conversas sobre dinheiro, dívidas que afligiam, homens e mulheres. Antigamente aos sábados à noite, uma família da minha terra reunia-se invariavelmente. Tinha sofás velhos dados por uma tia rica a viver no Brasil. Os fedelhos cruzavam as mãos sobre o ventre e fungavam.

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Os homens saiam para a tasca e bebiam até caírem para o lado. Tossiam, acariciando o bigode, acendiam um cigarro tragando-o rápido, voltavam para casa emborrachados.
Aquela casa, não era rica nem pobre. Dona Maria e sua tia Clotilde discutiam pontos novos de tricot. Na outra sala ao lado a canalha brigava só para manterem o velho hábito.
Uma corneta tocava uma melodia forte e um clarinete soprava mostrando a força da arte do músico que nunca o foi.

Aos domingos todos levavam as roupas domingueiras para a missa. A igreja de Mateus tinha sempre o mesmo cheiro, o padre a mesma voz calma e o sermão a mesma mensagem. Rezar, rezar, para a remissão dos pecados, era a palavra repetida do velho prior.

Era dia de festa, havia fartura.

À tarde, a Banda de Mateus tocou no coreto. Os namorados passeavam de braço dado, e o beijo só acontecia às escondidas. Dona Maria deixou a sua filha Isabel ir para o baile à noite com a aprovação da tia Clotilde. Isabel era um encanto de menina a roçar os dezoito anos. O arraial ficava longe da casa e pelo caminho Isabel viu um homem desprezível com a barba por fazer apesar da profissão de barbeiro. Tinha sido casado ainda novo e gostava da mulher. Um dia ao chegar a casa viu que a Beatriz tinha fugido com um caixeiro-viajante, deu-lhe então para as bebedeiras e deixou de fazer a barba. Isabel teve pena do homem e não foi ao arraial: pôs-se a matutar na vida infeliz de tantas pessoas sem motivo justificável.

Em casa, a tia Clotilde passa revista a fotografias de gente do passado da aldeia. Mostra a Isabel retratos do falecido marido. “Sabes que o teu falecido tio, um dia deu um baile para toda a freguesia. Nesse baile, ele se ajoelhou a meus pés e disse-me que eu era a moça mais bonita que tinha visto em toda a sua vida”.

Tia Clotilde pigarreava de emoção. “Só que numa tarde linda de primavera o meu Jaime apareceu degolado junto a um galaroz também ele degolado”.
Isabel ao ouvir esta história sentiu calafrios. “Como pode haver gente que sinta prazer em passar a faca na garganta de alguém”?

Isabel ouviu histórias horríveis. “Esta gente não sabe fazer mais nada senão matar? Onde fica o amor, onde mora o perdão”? Isabel não chegou a casar. Não confiava nos homens. Viveu para os outros. E foi para freira em Coimbra.

Uma noite, deitada, olhando as estrelas que piscavam e brincavam no céu, morreu em paz!

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