Sexta-feira, 30 de Setembro de 2022
Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

A grandeza do perdão

Em tempos passavam nas aldeias mulheres com profissão chamada de “ambulante”, mulheres errantes mas com objetivos bem definidos.

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Surgiam, não se sabia de onde e com mil cuidados estudavam os lugares onde pudessem observar a geografia da aldeia. O alto de um monte ou a capelinha eram preferenciais no estudo mais minucioso e concludente.

Essas mulheres, chamadas “da vida” vinham de fora como os cauteleiros, os caldeireiros, os amola tesouras, os ciganos, os loucos e mendigos, chegavam tímidas tentando mostrar o seu corpo normalmente disforme e maltratado… Tentavam esboçar sorrisos mas estes eram o espelho comprometedor de uma vida difícil e sofrida.

Chegavam à aldeia e instalavam-se onde podiam e ficavam nela depois de atenderem os homens que delas precisavam e não ficavam mais do que dois ou três dias para não levantarem suspeitas nem provocarem insurreições nas mulheres que, quando iam a tempo as corriam à pedrada chamando-lhes nomes feios, como “ordinárias e galdérias”…

Algumas dessas criaturas ambulantes usavam grifos de permanente e sapatos coloridos vermelhos, ou sapatos altos mal-amanhados que tantas vezes provocavam quedas aparatosas com risos de escárnio de espectadores sempre atentos aos devaneios circulatórios dessas criaturas.

Algumas eram mais feias do que bonitas, mais baixas do que altas, mais velhas do que novas, não tinham cintura nem mamas levantadas. Sim, eram fartas de cabelo, fome e miséria.

Chegavam desconfiadas, cabeça levantada olhando para a frente tentando mostrar dignidade e importância. Iam comer à taberna uma bucha olhando para os jogadores de cartas como que a oferecerem-se para que algum figurão lhes oferecesse um mata-bicho. A esse figurão de olhar atrevido considerava-o já como um primeiro cliente.

Algumas eram fieis e vinham a intervalos regulares em tempo de feiras e festas importantes, vinham com o estudo seguro de um calendário que só elas sabiam.

Uma delas gabava-se que tinha no seu currículo a instrução necessária de apresentar os seus dotes de sexualidade a rapazes estudantes sem que estes questionassem a sua idoneidade colocando-a no patamar de preferência no conjunto de outras que também eram estudantes… Gabava-se esta bonita e astuta mulher ambulante de ter tirado do celibato a pureza de alguns rapazolas assim como de homens bem casados e endinheirados…

De tanta gabarolice, essa mulher cansada e doente deu prazeres e sofrimentos a muitos homens, como viúvos, rapazes pobres e indigentes, ou mesmo velhos jarretas, bem vestidos e bem barbeados denunciando fartura de dinheiro e muita qualidade de vida… essa arguta mulher levou à ruína pessoas e famílias com a sua arte felina de sedução.

Morreu cedo. O povo fez-lhe o funeral perdoando-lhe o seu comportamento e as suas fraquezas humanas. O povo sabia que essa pobre criatura perdeu os pais ainda muito nova ficando entregue aos perigos deste mundo. Fez-se uma coleta para pagar o funeral e ninguém quis ficar de fora porque diziam que ela também era filha de Deus e que o Criador tinha uma predileção especial pelos pobres e desamparados.

“Que Deus lhe perdoe na Sua infinita bondade”, desabafava um ancião bem abastado que a conhecia bem por dentro e por fora.

Ali estava o corpo deitado no chão na Junta da Freguesia com o regedor firme e solene cofiando contristado o seu fino bigode. Ali estava um corpo gelado e sofrido, um corpo cheio de pressa para fugir deste mundo cruel e injusto… deitado estava aquele ser abatido terrivelmente fragilizado e com pressa de descer à terra…terra que a iria libertar de uma vida demasiado longa.

Olhando para os seus lábios, sentia-se que eles mostravam uma doçura e felicidade por não mais comerem do mel amargo de que este mundo está cheio…

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