Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2021
Victor Pereira
Pároco. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

A Higienização da História

É interessante notar os vários rumos que estamos a dar às nossas leituras da história. Se antes o fazíamos com orgulhosa exaltação, contando afetadamente as tremendas façanhas dos nossos ilustres antepassados, agora estamos a ser convidados a ter vergonha da nossa história, pelos abusos e excessos que foram cometidos contra povos e culturas. Está-se a […]

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É interessante notar os vários rumos que estamos a dar às nossas leituras da história. Se antes o fazíamos com orgulhosa exaltação, contando afetadamente as tremendas façanhas dos nossos ilustres antepassados, agora estamos a ser convidados a ter vergonha da nossa história, pelos abusos e excessos que foram cometidos contra povos e culturas. Está-se a impor a visão histórica do ressentimento e do remorso, a leitura da história por aquilo que ela devia ter sido e não por aquilo que ela foi. O que nos vai levar a um injusto, insano e despropositado exercício do labor intelectual: reinscrever a história e julgá-la segundo os critérios, os valores e os padrões éticos e sociais da sociedade atual. O revisionismo histórico nunca acaba bem. 

Esperando-se que esteja bem escrita e bem contada, a história é a história. Está feita, segundo cada mentalidade, cada tempo e cada contexto, com homens e mulheres com virtudes e defeitos, com grandeza e devassidão, com heroicidade e covardia, com luzes e sombras. Cada homem e cada mulher agiu segundo as suas circunstâncias e dentro de conjunturas muito diferentes das nossas, procurando dar o seu melhor pelo progresso humano, económico e social do mundo até chegarmos aos níveis em que hoje nos encontramos. Não faz qualquer sentido e é um lamentável ato de estupidez querermos hoje que há muitos séculos atrás já tivessem o nosso desenvolvimento humano e ético e julgar as grandes figuras da nossa caminhada histórica por aquilo que hoje consideramos inaceitável, desprestigiando e deitando ao esquecimento os grandiosos contributos que essas figuras deram à nossa admirável saga coletiva e ao mundo. 

Se a legítima luta antirracista vai por aqui, vai muito mal. Espero que os historiadores não se entreguem agora à construção de julgamentos e narrativas históricas enviesadas e distorcidas para se levar a história para aquilo que hoje mais nos convém. O racismo resulta de preconceitos estultos, que não têm qualquer justificação, e sobretudo de uma profunda falta de educação e de formação humana nas pessoas. Se o queremos combater, temos de investir na educação dentro da família, na escola e na sociedade, promover a convivência e o encontro de povos e culturas, e não com violência ou insultando a nossa história e as suas grandes figuras. O branco, por norma mais rico e desenvolvido, sempre se julgou superior diante do negro. Há que acabar com esta altivez e promover a igualdade e respeito por todo o ser humano.

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