IgrejaA Maternidade adiada

A Maternidade adiada

1 - Em Portugal celebra-se no primeiro domingo de Maio o «Dia da Mãe que, neste ano, por causa da beatificação do Papa João Paulo II, passou algo esquecido. Todavia, o próprio Papa gostava de falar da maternidade. Por isso, em honra do Papa e de todas as mães, dediquemos ao tema esta reflexão. Qualquer estudo sobre a maternidade vem hoje acompanhado da reflexão sobre a família e a economia, sobre a presença da mulher nas estruturas sociais e sobre a sexualidade. Há uma conexão inevitável entre esses temas que aparece frequentemente no magistério de João Paulo II.

2 – A mulher mereceu do Papa agora glorificado uma atenção especial, quer em gestos pessoais quer em documentos escritos. Nas muitas visitas pastorais, as mães gostavam de lhe apresentar os filhos pequeninos para que ele os tocasse e abençoasse; e, em documentos escritos, é frequente a reflexão sobre a mulher, quer como prolongamento do estudo sobre Nossa Senhora na revelação e na história da Igreja, quer no estudo directo da família, do noivado e do casamento, como acontece na exortação «Familiaris consortio» (Comunidade familiar), quer na reflexão sobre a problemática da vida, como é o caso da encíclica «O Evangelho da Vida», quer ainda nas considerações sobre a mulher consagrada na virgindade e vida contemplativa, ou dedicada à catequese, a tarefas sociais e de amor ao próximo.

Houve até quem quisesse ver nessas atitudes do Papa o eco de amizades pessoais criadas na sua juventude em que foi operário, actor, estudante, desportista. De facto, a sua riqueza anímica é notória e a sua preparação académica é da área da antropologia e da ética, mas isso é insuficiente para explicar o seu magistério acerca da mulher. Este nasce antes da consciência do lugar que a mulher vem a ocupar na sociedade actual e que o Papa João XXIII, já em 1963 na encíclica «Pacem in terris», havia definido como um dos «sinais dos tempos».

3 – De facto, a mulher ocupa hoje um lugar de relevo em todo o tecido social, seja nas escolas como aluna e professora, seja na área jurídica, seja nos centros comerciais, seja na indústria hoteleira, seja nos hospitais e laboratórios de análises clínicas, seja na enfermagem, seja em gabinetes de atendimento, seja nos meios de comunicação social, seja nas indústrias de lazer. Aparece menos nos centros superiores de decisão. Toda essa legítima promoção social e cultural da mulher coloca desafios à vida de família.

Desgraçadamente, a mulher aparece também nos negócios sombrios das paixões humanas, desde a prostituição de luxo e da rua, desde a publicidade e teatro brejeiros aos grupos do crime organizado, desde os casamentos desfeitos à violência doméstica. Umas vezes, ela é vítima de graves carências económicas e das paixões dos homens, outras vezes é vítima de si mesma, da sua vaidade e tendência para agradar. Em todos os casos, a sua queda tem vastas repercussões: também aqui a mulher é geradora.

Na relação homem e mulher há um difícil equilíbrio humano, e a sociedade, em vez de ajudar a construir esse equilíbrio, aproveita o facto para acentuar o desequilíbrio por meio de uniões fragilizadas, pelo divórcio facilitado e pela oficialização de todo o tipo de aventuras. Chega mesmo a fazer da riqueza anímica da mulher um produto que se vende abertamente como erotismo desintegrado e, indirectamente, como estímulo de outros produtos. Para isso, desenvolveu uma vasta indústria farmacêutica de anticonceptivos cada vez mais refinados. Antigamente, eles eram distribuídos em segredo, agora são publicitados por toda a parte e ensinados às crianças nas escolas.

Esta «libertação da mulher» passou para a esfera política, e as militâncias partidárias fazem dela uma bandeira de triunfo, classificando-a de «sexualidade progressista» liberta de tabus. Essa mentalidade penetrou no próprio casamento, bloqueando-o em si mesmo, sem outra missão que vá além da felicidade dos cônjuges, um egoísmo legalizado, esterilizado, sem filhos! Mais: chega-se ao extremo de humilhar como ignorantes as mulheres casadas que aceitaram ser mães mais que uma vez.

4 – A maternidade vem a tornar–se assim um acontecimento adiado em sectores da sociedade. É verdade que a descida da mortalidade infantil, a esperança de vida mais dilatada e o trabalho diário fora de casa cansa, conduzem à diminuição da natalidade. Todavia, a mentalidade antinatalista vai para além do razoável, tem ares de epidemia. A hipótese do filho é colocada no fim da lista dos bens considerados prioritários: a casa e o seu conforto, a mobília de alguma qualidade, o automóvel e as novas tecnologias, as férias e alguns anos libertos do encargo de filhos, e, para aceitar o primeiro filho, a garantia de que nada lhe faltará. Com tais pressupostos, é uma sorte que haja um filho!

Ora o filho não pode ser colocado no fim das coisas domésticas. Quando ele for homem e souber que os pais o colocaram na balança abaixo dos artigos domésticos, fará de seus pais um juízo severo. O filho merece uma certa prioridade sobre as coisas. Por não entender isto é que o ocidente endinheirado vem a tornar-se uma zona de velhos e doentes. E não basta ter um filho como quem coloca uma flor na lapela. Está cientificamente provado que só o terceiro filho (e não o parzinho) garante a renovação e a continuidade da vida, e esse filho é, em termos de espaço e economia, o menos dispendioso e o mais dinamizador dos pais e dos irmãos já nascidos (J. Leclercq). Todavia, a epidemia antinatalista e erótica distorce os dados científicos, falseia as informações demográficas e alimenta o pânico de excesso de população. Muitas esposas acabam por sofrer em silêncio a mutilação profunda da sua afectividade materna, muitos filhos únicos acusam abertamente carências de relacionamento humano, e muitas escolas e igrejas esvaziam-se de crianças, de jovens e de adultos.

A todas as mães, e nomeadamente às mulheres casadas que aceitaram ser mães mais que uma vez, a minha saudação agradecida, e os votos de que o beato Papa João Paulo II interceda agora no céu pelos casais e os ajude a viver o que ele ensinou enquanto esteve connosco.

 

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