Os mais velhos da aldeia vaticinavam que em breve chegaria uma tempestade que haveria de destruir as culturas já feitas e as vindimas, essas estariam também condenadas e irremediavelmente perdidas. A sabedoria popular, pelo desenho e cores das nuvens implantadas no céu, sentenciava uma tarde arrasadora e inesquecível pela voz de duas velhas mulheres sentadas num banco de pedra com xaile preto nas cabeças e óculos caídos a taparem o nariz. Ali compenetradas estavam na manufatura de camisolinhas para os netos, uma delas, afagando, de vez em quando, um bichano peludo, ranhoso e preto. A mais idosa discorria olhando para as nuvens:” Ó Zulmira vem uma trovoada que vai pôr tudo de pantanas, vamos mas é ensaiar a prece a Santa Bárbara bendita…”. A outra com um olhar complacente e angelical respondeu que não havia de ser nada porque a aldeia estava habituada a muitas trovoadas no mês de maio. Um outro bazófia de sacho ao ombro, bigode revirado ia para a Granja cantarolando uma moda brejeira como que a dizer às velhas que não tinha medo das trovoadas…
A chuva, os relâmpagos e os trovões não tardaram a chegar. Em pouco tempo a ribeira mal continha a grande cheia que vinha pelas vertentes dos montes envolventes. E a azenha velhinha na margem da ribeira foi testemunha da tragédia horrível que a tempestade desencadeara em Mateus. Com os relâmpagos no céu a furarem a negritude das nuvens, tudo parecia um inferno e a natureza quase a declarar-se em estado de guerra.
As gotas caíam grossas num ruído que assustava e os trovões mostravam a sua força e magnitude que obrigava os mais medrosos a benzerem-se à pressa. Cheirava a terra aquecida e molhada, odor intenso que fermentava o chão. Estavam 40 graus e o ar era sufocante… irrespirável. Um trovão mais forte de rebentar as entranhas fez correr de medo a tia Carolina a casa de minha mãe pedindo que a deixasse entrar, pois ela sabia que naquela casa ninguém tinha medo das trovoadas, exceto eu que olhava para a minha progenitora sentindo nela a proteção e o conforto maternal.
O que caia do céu era uma tromba de água e as nuvens negras e prenhes atabafavam toda a aldeia. Da Rua das Flores corriam desenfreadas cordas de água, arrastando tudo o que encontravam à sua frente… A estrada nacional mostrava um quadro sinistro com tanta água e entulho e até pedras e pedregulhos. Cavalos e burros dos ciganos aferroados com as picadas dos mosquitos sacudiam o rabo. Chovia cada vez mais e o patriarca dos ciganos não poupava os animais com o chicote, patinhando os cavalos na lama arrastada que descia do povo. Uma cigana cercada por rugas e sujidade na cara sacudiu a cabeça reprovando a atitude do homem e como resposta levou também ela um açoite de chicote…
Os cachões de água que desciam furiosos encostados à casa da Dona Maria galgaram gigantescamente a estrada e entraram na Nitreira do Conde onde estavam instalados vários porcos bem nutridos. O espaço onde se encontravam não permitiu que com o acumular da água os animais pudessem fugir. Grunhiram mas ninguém os ouviu. Tal mortandade não passou despercebida aos ciganos. Para eles foi uma alegria quando tiveram autorização do administrador do Conde, César Augusto Monteiro de que podiam levar os bichos para as tendas onde estavam instalados. Foi fácil de perceber pelas barrigas inchadas dos ciganinhos, dos cães e dos cavalos que o festim da mortandade tinha sortido um efeito abençoado.
Depois da trovoada devastadora, Mateus reergueu-se rapidamente em espírito solidário e o desencadear de novas aventuras, sucessos e paixões, não se fez esperar.



