Em primeiro lugar, a comunhão nos sentimentos de aflição: «A Igreja é sensível ao sofrimento de todos, particularmente dos mais pobres e desempregados, independentemente da fé que professam… A Igreja faz parte da sociedade e, com a visão do homem e da vida que lhe é própria, é chamada a contribuir para o bem das pessoas e da comunidade nacional como um todo… A principal resposta da Igreja para o momento atual tem sido dada pelas suas instituições de solidariedade social, como prática ativa de caridade».
Este texto lembra a «pertença» da Igreja à sociedade civil, não é um corpo estranho à mesma, e cita um texto do Concílio sobre a sua missão específica: No campo que lhe é próprio, a comunidade política e a Igreja são independentes e autónomas uma da outra, mas ambas, embora a títulos diferentes, estão ao serviço da vocação pessoal e social dos mesmos homens (Gaudium et Spes, n.76)
2 A Nota recorda, depois, algumas interpelações que a atual situação faz aos cidadãos, colhidas na doutrina social da Igreja:
Prioridade na busca do bem-comum. Esta primazia atinge todas as pessoas e grupos sociais: governo e oposição, partidos políticos, associações de trabalhadores e de empresários, etc.
Direito ao trabalho. O trabalho não deve ser considerado apenas como forma de manutenção económica, mas como meio de realização pessoal no mundo. Esta situação requer criatividade das empresas, caminhos ousados de financiamento, diálogo social em que pessoas e grupos decidam dar as mãos apesar das diferenças.
Estabilidade política. É exigida pela própria natureza da democracia e da responsabilidade dos seus atores. Numa democracia adulta, as crises políticas deverão ser sempre exceção. Compete aos políticos escolher os caminhos possíveis, que não são muitos, estudá-los e apresentá-los com sabedoria.
Respeito pela verdade. O discurso público tem de respeitar a verdade do dinamismo das situações e da procura de soluções.
Generosidade na honestidade. O bem da comunidade nacional exige de todos generosidade para não dar prioridade à busca de interesses particulares, e a honestidade para renunciar a caminhos pouco dignos de procura desses interesses.
3 Finalmente, a Nota afirma a necessidade de uma renovação cultural, ou seja, a verdadeira compreensão de alguns elementos decisivos do mundo económico-financeiro em que estamos inseridos. Refere três desses elementos:
a. Sistemas económico-financeiros
Portugal, membro da União Europeia e da Zona Euro, está inserido no quadro das economias liberais, vulgarmente designadas de capitalismo. A Igreja sempre defendeu, entre as expressões da liberdade, a liberdade económica, desde que as suas concretizações se submetam aos objetivos do bem-comum. Os próprios lucros das pessoas, das empresas e dos grupos devem orientar-se para o bem- -comum de toda a sociedade:
b. Equilíbrio entre finanças e economia
Como ensina Bento XVI, as finanças devem ter em vista a melhor produção de riqueza e o desenvolvimento, e importa que economia e finanças se pratiquem de modo ético a fim de criar as condições adequadas para o desenvolvimento da pessoa e dos povos.
c. Os mercados
Sujeitos a uma dimensão ética de serviço à humanidade, os mercados não podem separar-se do dinamismo económico, transformando-se em fontes autónomas de lucro que não reverte necessariamente para o bem-comum da sociedade.
4 Terminam aqui as afirmações colhidas no texto integral da Nota do Conselho Permanente do Episcopado. São afirmações doutrinárias, de índole geral mas direcionadas que, em linguagem ainda mais simples, poderiam resumir-se assim:
a.Vivemos na Europa do séc. XXI e temos de orientar a vida pública dentro dos esquemas de hoje. O sistema capitalista nasce da liberdade da pessoa, é legítimo em si mesmo, tanto na busca de juros como na criação de mercados. Deve, porém, evitar dois caminhos de corrupção: cair no mero jogo de capitais, ou seja, manobrar o dinheiro pelo puro jogo de finanças sem verdadeira e real produção de bens; ou manobrar os mercados de modo que eles fiquem blindados e revertam somente em favor dos que os controlam. Tais atitudes são cancros do sistema capitalista.
b. Politicamente, os governantes democraticamente eleitos devem manter- -se e falar aos cidadãos com verdade.
c. Socialmente, é intolerável que haja quem tente explorar qualquer situação de crise em proveito próprio, sejam pessoas sejam grupos, sejam associações patronais sejam sindicatos
d. Só os corações generosos entendem esta mensagem.


