Sábado, 27 de Novembro de 2021
Vitor Pimentel
Empresário. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

A ponte da ilusão

Em campanha eleitoral, o desespero pelos votos faz, muitas vezes, ultrapassar o razoável, perdendo-se o bom senso e entrando-se em populismos perigosos, onde se promete tudo, não pelo mérito das propostas, mas pela sua aceitação.

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Apesar disso, a promessa do referendo à reabertura do trânsito na Ponte Romana gerou ambição e expectativa nos comerciantes e empresários da Madalena. 

Logicamente, essa expectativa não é, por si só, a reabertura do trânsito na ponte, mas sim a revitalização económica daquele núcleo urbano. 

A presença do KM 0 da EN2 no coração da freguesia dá a oportunidade flagrante do poder local conseguir dinamizar aquela zona, sem a necessidade de referendar ilusões.

É possível: 

  1. A implementação de serviços públicos na Madalena;
  2. A reabilitação dos edifícios devolutos junto ao marco do KM 0, para exploração turística; 
  3. O controlo do estacionamento abusivo junto ao pequeno comércio;
  4. A criação, como, aliás, eu próprio propus numa sessão pública na sede da junta de freguesia, de uma feira em cima da ponte romana que levasse naturalmente a que esta fosse atravessada em ambos os sentidos;

A classificação da Ponte Romana de Chaves como Património da Humanidade, esta sim, uma verdadeira promessa eleitoral escrita, do atual executivo e da qual até ao momento nada se sabe.

Acenar popularmente com um referendo inócuo, desvia apenas a atenção ao que realmente importa, não tem sentido e não resolve, nem os problemas da cidade, nem, muito menos, os da freguesia da Madalena e Samaiões. 

Primeiro porque, o mesmo, deveria ter como condição prévia o parecer favorável da Direção Geral do Património Cultural (DGPC) sobre a possibilidade de se restabelecer trânsito automóvel na Ponte Romana, que, recorde-se, é um monumento nacional tutelado pelo Estado. 

Segundo porque a questão a referendar tem de ser objetiva e clara. A questão “Concorda com a reabertura da Ponte Romana de Chaves ao trânsito de veículos automóveis ligeiros, num único sentido? Sim/Não” não é clara, não é objetiva, não tem enquadramento temporal (será em 2021 para caçar votos, mais uma vez?), nem sequer indica o sentido do trânsito. Abrir o trânsito no sentido Madalena – Santa Maria Maior é muito diferente de o abrir no sentido Santa Maria Maior – Madalena.

O executivo liderado pelo Dr. Nuno Vaz sabe bem que, no limite, ao submeter a proposta de referendo ao Tribunal Constitucional, esta será recusada. 

Desta forma fica criada a ilusão de que o executivo tentou cumprir esta promessa, que sabe não ser possível executar, mas a culpa passará a ser alheia.

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