2 – Essa questão esteve presente na assembleia dos bispos de Portugal, realizada em Fátima na outra semana. Nesse encontro proferiu três conferências o arcebispo Rino Fisichela, presidente da Comissão Pontifícia para a nova Evangelização.
Num documento fornecido pela secretaria do Sínodo esclarece-se, primeiramente, o que não é a «nova evangelização»: não é a inventariação de «técnicas de comunicação» para difundir a doutrina da Igreja nem de uma conquista dos jovens ou da conversão dos agnósticos e ateus e dos seguidores de outras religiões para preencher as lacunas deixadas pelos cristãos que abandonaram a prática religiosa. Isso equivaleria a identificar a nova evangelização com uma cruzada de reconquista.
A nova evangelização é um problema interno da Igreja: as mudanças verificadas na sociedade actual perturbam e desorientam alguns cristãos parecendo tirar-lhes o pé, não sabendo como equilibrar fé e contemporaneidade. Muitos pedem à Igreja que «mude» a sua doutrina, o que significa que tais pessoas se sentem incapazes de conciliar a vida e a doutrina cristã. São essas mudanças que os agentes da nova evangelização têm de conhecer em profundidade, suas carências e riquezas, não bastando repetir o que já se fez no passado porque os destinatários têm outra fome e outra sede. Apresenta-se aqui a síntese dos novos cenários sociais, culturais, económicos, políticos e religiosos.
3 – Primeiro, o cenário cultural
A cultura moderna é um amontoado de conhecimentos desconexos, onde faltam princípios fundamentais que dão ao saber humano a harmonia interna. Tradicionalmente a cultura distinguia-se da erudição, entendendo esta como mero amontoado dos conhecimentos e aquela como um saber unificado por princípios e regras fundamentais. Essas regras básicas, qual estrutura óssea do corpo, é que definiam e distinguiam a cultura clássica, a cultura oriental, a cultura cristã. Entretanto, desvalorizou-se a componente reflexiva da cultura e acentuou-se a componente técnica, procurando o eficaz e o útil e estendendo a noção de cultura a tudo que o homem faz: à culinária, à indumentária, os hábitos sociais. Nessa nova acepção de cultura perderam-se os pontos que lhe davam equilíbrio e consistência e as balizas do pensamento metafísico que respondia às perguntas primeiras e últimas.
Esta nova cultura desliga- -se de Deus, e essa ruptura traz inevitavelmente implicações no modo de entender as relações homem/mulher, o sentido da natureza que deixa de ser «criação» para ser fonte de lucro, e o sentido da vida humana. Esta assume-se como um fluir mundano, nunca como aprendizagem do diálogo eterno com Deus. As pessoas concentram–se no presente e perdem o sentido de peregrinação transcendente. Divulga-se o suicídio voluntário como um novo «direito» do homem sob o nome de eutanásia; um português dos Estados Unidos da América pede para ser sepultado com a indumentária do Benfica, outro com fato de praia, e um terceiro com uma garrafa de uísque no caixão. Alterou-se o respeito pela morte, que um sociólogo define como o último reduto da consciência religiosa do homem.
Os próprios crentes são arrastados nessa onda da secularização. Ainda se pedem as «coisas religiosas» mas, em muitos casos, ela são tomadas como meios para obter benefícios temporais e não para caminhar para Deus e para a eternidade. Daí que a «ética» seja hoje a parte mais desprezada. Aceita-se a fé desde que isso não mexa com a vida diária.
Um certo culto da personalidade, do sucesso e da opinião, quebrou o sentido de pertença à comunidades religiosa. O alheamento de muitos cidadãos pela vida pública e de muitos crentes pela Igreja tem aí as suas raízes inconscientes. O toque dos sinos não se ouve, porque o esquema mental desses ouvintes alterou-se.
Como reacção a essa quebra dos vínculos religiosos, nascem manifestações de fundamentalismo religioso. Os descrentes chamam a isto fanatismo; os atingidos apelidam os laicos de fanáticos às avessas. Parece faltar um novo equilíbrio dos valores em causa.
4 – Em segundo lugar, o cenário da globalização
É outro vector da mudança. Tudo se faz e se pensa em termos mundiais, tudo depende de tudo, desconhecendo-se a cabeça desses mecanismos. No plano económico, a globalização fez nascer mecanismos mundiais que controlam a vida dos países não se sabendo onde está a cabeça do poder, e nada podendo fazer os governantes, como foi recentemente badalado até à náusea No mundo global e sem rosto, a quem se devem pedir contas, a quem se deve dirigir o moralista?
Religiosamente, misturam- -se de tal modo as culturas nacionais que originam um fluído religioso de síntese, onde nada é definido e estável e tudo se relativiza num tom gelatinoso. Não havendo regras nem saberes estáveis, «sólidos», ninguém aceita ser ensinado nem governado por ninguém, pois tudo se reduz a opiniões de igual valor. Que o digam os párocos constrangidos a prestar serviços sem exigir regras, os agentes da autoridade pública obrigados a elevar as penas e castigos para se fazerem obedecer, os educadores do pudor impotentes diante da ditadura da moda, e o próprio Papa perante a investida de «teólogos» que se colocam acima da Igreja!
5 – Em terceiro lugar, o cenário dos média
Os dois cenários da cultura e da globalização são em parte causa e efeito dos «média». São eles quem ditam as regras do que se deve pensar e fazer, e como eles vivem da surpresa, da moda e da publicidade, do sensacional e escandaloso, educam a população para a emoção, o imediato, a aparência, o «já», em prejuízo da reflexão e do pensamento longo e duradouro. São o novo registo civil do que nasceu e existe: o que eles não referirem nem existe nem é importante.
Qual deverá ser a temática da evangelização nesse ambiente?




