IgrejaA sabedoria e a coragem do acto eleitoral

A sabedoria e a coragem do acto eleitoral

1 - O próximo Domingo é um dia cheio: é o dia da Ascensão do Senhor, é o dia das Comunicações Sociais, e é o dia das Eleições dos deputados e do governo.

Três temas relacionados entre si: a Ascensão ao céu é o outro rosto da Páscoa e da nossa vocação ultra terrena, mas não nos alheia da vida terrena; as Comunicações Sociais são o prolongamento do nosso relacionamento humano, cultural e social; as Eleições são uma expressão da nossa condição de cidadãos.

Cada um dos temas merecia um comentário pormenorizado. Vou deixar a Ascensão para a celebração no interior das igrejas, o tema das Comunicações Sociais para a semana, e falarei hoje das Eleições.

2 – Está a chegar ao fim a campanha eleitoral e aproxima-se o dia do voto. A campanha começou muito antes do dia previsto e há um certo cansaço nas pessoas. Houve muito ruído, algo de feira de verdades e vaidades. A sabedoria dos povos diz que nunca se mente tanto como durante uma guerra, depois de uma caçada e durante o namoro. A campanha eleitoral tem um pouco de tudo isto: é guerra, é caça, é namoro. Mas é assim e temos de ir votar.

Recordo hoje o que nós, bispos, dissemos no princípio de Abril deste ano sobre as eleições legislativas de 5 de Junho:

«A democracia não se esgota nos actos eleitorais, mas estes constituem um momento de particular significado, pois correspondem à escolha daqueles que, nos próximos tempos, irão conduzir os destinos do país. É fundamental que as nossas escolhas sejam bem reflectidas e ponderadas, tendo em conta as ideologias perfilhadas pelos vários candidatos e partidos, e a prática da verdade e do respeito mútuo, especialmente durante a campanha eleitoral. Importa conhecer os seus programas e verificar a atenção que prestam aos mais carecidos, económica e socialmente. As opções éticas daqueles que pedem o nosso voto devem contar na hora da votação.

Os Bispos exortam os eleitores a que não se abstenham mas participem responsável e livremente, e apelam às diversas forças sociais e políticas para que se esforcem por encontrar um amplo consenso que promova a governabilidade do nosso país a fim de responder ao desafio premente da solução da actual crise, procurando sempre defender e servir os mais frágeis e construir o bem comum».

3 – Os apelos dirigiam-se aos eleitores e aos candidatos. Algumas dessas palavras merecem ser confrontadas com o que se passou.

Primeiro: Os candidatos são aqueles que se apresentaram às eleições. Não serão os que cada um sonhou, mas não há outros e é neles que temos de votar. Acerca das campanhas é precisa alguma sagacidade porque as campanhas eleitorais são hoje tecnicamente programadas, revestidas da arte da publicidade na escolha dos cânticos, nas frases, nos discursos. Temos de examinar o que foi dito e o que foi escondido A ideologia não aparece claramente, mas pode encontrar-se em algumas palavras e gestos.

Segundo: O voto deve ser ponderado, reflectido, responsável e livre, isto é, o voto não pode ser encomendado, é um gesto pessoal; não deve ser um acto emotivo, clubista, mas um acto dirigido para aqueles que nos próximos anos nos vão governar, podendo incidir no candidato de um partido diferente do habitual. Por isso, o voto é secreto, para que o eleitor não se sinta pressionado.

É preciso acrescentar que a «responsabilidade» exige que o voto seja inteligente, isto é, que tenha em conta as realidades, não seja um voto perdido e ajude à governabilidade. Se se tratasse de uma sondagem de opiniões sem consequências, poderia ficar-se num voto ideal, mas, tratando-se da escolha de pessoas que necessariamente nos afectarão, temos de fazer contas no acto de votar.

Terceiro: Ter em conta a prática da verdade, o programa apresentado, as opções éticas, a atenção aos mais débeis e ao bem comum».

A lealdade e a verdade detectam-se no modo como vivem os candidatos e nas respostas às questões formuladas. Do espírito de verdade dos candidatos faz parte ainda o respectivo programa. Embora nos programas haja sempre algum sonho, um programa muito vago é sinal de quem joga nas sombras. No caso português, temos dívidas enormes a pagar a quem pedimos dinheiro e mudanças inevitáveis a fazer, e esconder isto é mau sinal.

Também o respeito mútuo é detectável: sendo verdade que na luta política cabe alguma agressividade, a honradez conhece-se no saber encontrar os limites desse afrontamento.

Finalmente, os dois grandes pilares da acção governativa são a atenção aos segmentos socialmente frágeis e ao bem comum. Geralmente, os candidatos insistem no primeiro, que tem de ser calibrado com o segundo, pois a missão de um governo não é a de uma Conferência Vicentina nem a de uma Santa Casa da Misericórdia. Há fragilidades humanas que as estruturas públicas nunca resolverão. Tais casos ficam para ser atendidos por obras sociais. O bem comum é o objectivo típico de um governante: promover o equilíbrio das camadas sociais, a firmeza e segurança do Estado, a justiça na sociedade. É isso que define a alma de estadista.

A educação política dos cristãos faz parte das obrigações dos pastores da Igreja. Mas o voto nunca resulta de uma certeza matemática. Requer serenidade, humildade e coragem.

-PUB-


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