Sábado, 2 de Julho de 2022

A V Assembleia Geral do Episcopado da América Latina

Durante o mês de Maio, do dia 13 ao dia 31, realiza-se na Aparecida, S. Paulo, Brasil, a V Conferência Geral do Episcopado Latino Americano e das Caraíbas. O Papa estará lá de 9 a 14 de Maio, procedendo à canonização de um frade franciscano do séc. XVIII, Beato Frei António Galvão, muito querido do […]

Durante o mês de Maio, do dia 13 ao dia 31, realiza-se na Aparecida, S. Paulo, Brasil, a V Conferência Geral do Episcopado Latino Americano e das Caraíbas. O Papa estará lá de 9 a 14 de Maio, procedendo à canonização de um frade franciscano do séc. XVIII, Beato Frei António Galvão, muito querido do povo, e à abertura da Assembleia. Pelo enorme interesse eclesial e mesmo social desta assembleia, deixa-se aqui uma informação mais alargada.

Como diz o título, trata-se de uma assembleia dos bispos católicos dos países que foram outrora colónias de Portugal e Espanha, desde o México ao extremo sul do continente americano. Os desafios pastorais postos à Igreja naqueles países são comuns, dada a sua identidade cultural e social, e há muitos anos que costumam fazer assembleias deste género. A realização desta assembleia havia sido decidida por João Paulo II, mas o tema e o local já foram escolhidos pelo Papa Bento XVI. Essa Assembleia é formada pelos bispos delegados do Episcopado de cada um dos países do continente, peritos e convidados, entre os quais o Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, e presidida por três cardeais escolhidos pelo Papa, um deles o cardeal Ré, da Congregação para os Bispos. Somam um total de 266 pessoas.

 

Assembleias históricas

Esta é Vª assembleia. Antes dela houve, em 1899, no tempo do Papa Leão XIII, um «Concílio Plenário da América Latina» que reflectiu sobre «os obstáculos e perigos para a fé», como a superstição, a ignorância e a acção da maçonaria, reflexos da situação política após a independência desses países do domínio colonial; em 1955, realizou-se no Rio de Janeiro a «I Assembleia Geral do Episcopado Latino Americano», que concluiu pela necessidade de incrementar as vocações sacerdotais nativas que tornassem a região menos dependente dos povos europeus; em 1968, em Medelin (Colômbia), decorreu a «II Assembleia do Episcopado Latino Americana», celebrada depois do concílio Vaticano II e presidida pelo Papa Paulo VI, desejosa de descobrir os «sinais dos tempos» por onde deviam avançar, acabando por sublinhar a enorme quantidade de pobres que era preciso libertar do estado de exploração; em 1979, em Puebla (México), a «III Assembleia», presidida pelo Papa João Paulo II, prolongou a análise de Medelin e acentuou a importância das Comunidades de Base para a evangelização dos pobres e alteração social. Era o tempo da teologia da libertação. Em 1992, em S. Domingos, capital da República Dominicana, presidida também por João Paulo II, decorreu a «IV Assembleia» que frenou a tendência político-social das duas anteriores e acentuou a necessidade de conhecer a cultura local em ordem à inculturação da fé. A «V Assembleia», na Aparecida, terá na abertura o Papa Bento XVI e procura responder ao novo clima social daqueles países.

 

Cultura emergente

Esse novo clima social é definido pelos estudiosos como «a presença de uma cultura emergente», ou seja, uma mentalidade nova criada pela «mistura de problemas locais com as ideias da modernidade, tecnologia, globalização, fortemente sopradas por um capitalismo selvagem e pelos meios de comunicação social». Diremos que é o clima cultural que respiramos na Europa transposto para terras mais pobres cultural e socialmente. Reina nas pessoas uma enorme confusão doutrinária que toma como iguais todas as religiões, uma mentalidade que não reconhece princípios fundamentais indiscutíveis e leva as pessoas a buscarem na religião não aquilo que Deus mandou mas o que pareça trazer mais felicidade e bem estar pessoal, segundo os gostos de cada um, uma mistura de psicologia, de terapia, de medicina e de tranquilidade emocional.

Percebe-se assim o que procuram nas celebrações litúrgicas, o tipo de música e os ritos utilizados, de que é exemplo o P. Rossi. Socialmente, verifica- -se nesses países uma situação de injustiça social, com governos eleitos democraticamente mas inseguros e facciosos, e a presença de organizações internacionais poderosas que exploram as riquezas naturais (desbaste de florestas para criação de gado, exportação de madeiras exóticas, minérios e petróleo) sem nenhum respeito nem benefício para os naturais. Ao lado da Igreja católica, crescem as seitas e movimentos religiosos de origem americana e pentecostal, e regressam os cultos pagãos antiquíssimos desses países. Desce em cada ano o número de católicos e não aumentam as vocações ao sacerdócio e vida religiosa. Mesmo entre católicos, há uma profunda desorientação da sexualidade: aborto, homossexualidade, eutanásia, relações sexuais fora do casamento, fertilização humana artificial. Compreende-se assim o sentido do tema da Assembleia: «Discípulos e Missionários de Jesus Cristo para que nele os nossos povos tenham vida. Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida». Centrar tudo em Cristo, de modo a ultrapassar o mundo pagão e as seitas.

O tema foi estudado nos vários países e em grupos. Ao aproximar-se a realização da Assembleia sente-se um clima de «suspense». Durante anos cultivou-se e difundiu-se por todo o continente latino americano a «teologia da libertação» como o caminho pastoral mais apropriado para a evangelização daqueles povos. Essa teologia tinha em vista a libertação económica e era um tema sedutor. O então cardeal José Ratzinger chamou a atenção para os perigos doutrinários e a insuficiência dessa teologia. Na encíclica «Deus é amor» o Papa ensina que «a Igreja não pode assumir como seu um movimento de luta oficial para a implantação da justiça no mundo. A Igreja educa para a justiça social, anima os leigos no seu compromisso, mas a ela como tal não lhe pertence fazer a revolução social. A ela cabe a evangelização». Mesmo assim, essa teologia ainda inspira a actividade de muitos grupos locais, anseia por alterações disciplinares para colmatar a falta de clero, e há mesmo um bispo que pediu dispensa do seu ministério para assumir tarefas políticas.

 

Brechas cristãs

Como se vê, os problemas desses povos são vastos e complexos, e têm vertentes religiosas, culturais, sociais e políticas. O Presidente da Conferência Episcopal da Colômbia, Mons. Luís Augusto Castro diz que há enormes brechas na vida dos cristãos latino americanos: «os Estados são Estados de direito, mas as leis não se cumprem; os cristãos que enveredam pela vida política deixam os deveres à porta dos ministérios; a caridade é praticada pessoalmente, mas profissionalmente constroem-se estruturas de vícios e injustiças; o culto praticado dentro das igrejas não gera cá fora cidadãos coerentes».

À distância de milhares de quilómetros, esta situação faz–nos perceber as exigências de uma verdadeira evangelização: «tornar as pessoas capazes de se libertarem das tradições pagãs das culturas locais, distinguir o que é a Igreja e o que são seitas da última hora, dar filhos e filhas à Igreja para ela poder viver com gente da terra, saber organizar-se politicamente e defender em favor do bem comum as riquezas locais perante a gula internacional, e agora discernir os valores do Evangelho diante do horizontalismo e da cultura laica da modernidade». Uma tarefa gigantesca, mesmo para os países da velha cristandade, quanto mais para os povos carecidos de pessoas e estruturas adultas! Quando se passa por esses países, mesmo em turismo, é necessário ir com alma de adulto.

 

D. Joaquim Gonçalves – Bispo de Vila Real

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