Naquela sexta-feira aborralhada, a despedida foi assim: “vamos à deita que é preciso levantar cedo”. O cedo, soube-o depois, eram as 5 da manhã. Porque era preciso aplicar mais uma demão de sulfato. E o sol do meio-dia castiga.
Oito dias depois, era o desânimo e a desolação, porque num outro final de tarde o temporal se abateu sobre o termo desta aldeia. Ali, onde um punhado de sexagenários-octogenários persistem em sobreviver com uma magra reforma e a produção de vinho e azeite, que uns poucos homens e mulheres da casa dos trinta/quarenta anos ajudam a manter. A trovoada veio de este e de oeste e quando as nuvens se encontraram provocaram tal descarga que o céu parecia abater-se sobre Santa Eugénia. Todo o termo ficou afetado, mas para sul e nascente da aldeia, pelo que se viu, a vindima ficou meia feita. Em alguns casos, talvez “nem valha a pena lá tornar”, antes da próxima poda.
E no passado sábado, os rostos das pessoas da aldeia, nas cerimónias de despedida de um conterrâneo que cedera às mazelas de uma vida dura de 94 anos, estavam carregados, tristonhos. Apesar de as conversas terminarem, quase sempre, com um “temos que olhar em frente”.
Pois! Para olharmos em frente, quando estas situações acontecem, é necessário que se alterem algumas condições.
Há o seguro de colheitas. Em boa hora instituído, diga-se. O Sistema Integrado de Proteção contra as Aleatoriedades Climáticas (SIPAC). Estas aleatoriedades exigem dos agricultores mais atenção. Aceita-se pacificamente. Mas por que será que os agricultores de Santa Eugénia, ou de outras localidades da nossa região, assim como 75% dos agricultores portugueses não fazem seguro agrícola de colheitas? Pois… Antes de mais, porque são caros face aos rendimentos das culturas que cobrem. Ora, quando se faz o seguro, acontece uma intempérie e o perito dos Seguros chega à propriedade, passado um mês da ocorrência e declara que o agricultor não teve prejuízo nenhum, algo vai mal. Direi, mesmo, muito mal.
Se o agricultor deve ter consciência de que a sua “indústria” se desenvolve sem telhado, também é verdade que é preciso encontrarem-se outras formas de apoio.
Como se pode esperar que agricultores como os que temos nas nossas aldeias façam seguro de colheitas? Que poder negocial têm face às seguradoras? Em tempos, a Casa do Douro, em alguns anos, negociou um seguro coletivo para os viticultores do Douro. E agora? Sabe-se que a CVR dos vinhos verdes faz esse seguro coletivo. Talvez a instituição que desempenha essas funções no Douro possa tomar igual iniciativa. Também os municípios, através dos seus Gabinetes de Apoio à Atividade Económica, poderão desempenhar aí um importante papel. Num contributo para que as nossas aldeias do Douro possam continuar a ter vida.



