IgrejaAinda Madrid

Ainda Madrid

1- É ainda à XXVI Jornada Mundial da Juventude que dedico o texto de hoje. Não estive fisicamente presente nas Jornadas, por causa da minha condição de bispo emérito e de algumas precauções de saúde. Esta reflexão cai na sequência da experiência pessoal na IV Jornada Mundial, em Santiago de Compostela no ano de 1998, do que ouvi de quem participou nas Jornadas de Paris e de Roma, e do que colhi na comunicação social.

As Jornadas Mundiais da Juventude são exigentes, são mesmo duras: há longas caminhadas a pé do lugar de hospedagem para o lugar das celebrações e destas para o lugar de hospedagem, transporte pessoal de volumes de alguns quilos contendo as refeições diárias fornecidas pela organização, hospedagem austera semelhante à dos militares em campanha, celebrações longas e nem sempre cómodas.

Esta experiência de vida é, por si mesma, um acto pedagógico que desmonta hábitos burgueses de uma sociedade de consumo e de conforto, atitude que os jovens apreciam e vivem com entusiasmo. Neste contexto, impressiona a coragem do Papa Bento XVI, um homem de saúde débil e com 84 anos de idade, que aceitou um programa denso de três dias numa cidade quente do interior de Espanha.

2 – Do programa oficial sobressaíram um conjunto de actividades em consonância com o tema oficial: «Alicerçados em Cristo e firmes na fé». Essas actividades foram: a escuta da Palavra de Deus e reflexão aplicada aos tempos de hoje, a oração da Via Sacra, o sacramento da Reconciliação como acto central e não mero expediente marginal para ir à Comunhão a adoração na Vigília do Domingo, a grande Celebração e Mensagem no Domingo. Nos intervalos, o encontro do Papa com os Consagrados no Escorial, o encontro com milhares de Seminaristas na catedral de Almodena, e a visita aos reis de Espanha e ao primeiro-ministro.

Estes actos são os caminhos clássicos da vida católica: a «Palavra de Deus», a «oração cristã com destaque para a oração centrada na Páscoa, os «sacramentos da Penitência e da Eucaristia», a preparação dos novos «padres», o apreço pela vida consagrada como sinal escatológico da Igreja, o empenho na evangelização da sociedade e o respeito pela legítima autoridade. A organização de um festival da juventude menos atenta incluiria o entretimento dos jovens com espectáculos de música e dança que abundam em Espanha, com passatempos foliões e visitas culturais a museus e palácios que também existem, e uma Missa no Domingo para dar um tom religioso. Dessa educação de verniz cristão estamos fartos. De Espanha tinha de vir algo ao jeito dos seus santos. S. Domingos de Gusmão e S. Vicente Ferrer, S. João da Cruz e Santa Teresa de Ávila, Santo Inácio de Loiola e S. Francisco Xavier, S. João de Ávila e S. José Maria Escrivá de Balaguer, os Neocatecumenais e os Cursos de Cristandade. Até os contestatários ajudaram a perceber, por contraste, a dinâmica da fé.

3 – Reparei nos discursos do Papa: breves, densos e encarnados na realidade actual.

«A economia tem de ser conduzida por princípios éticos internos ao próprio sistema de produção, e não somente ligados à distribuição posterior dos bens. Só assim a economia será humana, será mais consistente, e será mais eficaz». Esta mensagem da doutrina social da Igreja merecia ser gravada em todas as Escolas de Economia, porque o que habitualmente se vê é o contrário: montam-se os esquemas de produção e de movimentação de finanças em ordem ao maior lucro dos empresários e banqueiros, sem ter em conta nem os métodos e as condições das pessoas humanas que trabalham na produção nem as que depositaram o dinheiro. A esses dar-se-á depois uma pequena fatia dos lucros e dos juros, e umas migalhas posteriores para obras de caridade. Estas migalhas é que seriam a «ética» da empresa. A crise em que estamos envolvidos é fruto dessa mentalidade: um grupo de financeiros sem rosto, escondidos por detrás de umas siglas internacionais, manobra os dinheiros de todo o mundo e suga com juros exorbitantes os empréstimos feitos a países menos evoluídos. Vão percebendo que têm de descer os juros.

Acerca da fé cristã, lembrou o Papa que ela «não se pode viver isoladamente, mas com os outros, vive-se e transmite-se de umas pessoas para as outras»: é indispensável a mediação humana. Está aqui, em poucas palavras, o mistério da Igreja. A fé não é a conclusão de um raciocínio filosófico longamente elaborado num gabinete, ainda que tenha muita e variada reflexão, mas é uma relação vital com Jesus vivo e com os outros crentes. Assim como as amizades só se constroem pelas relações das pessoas, de modo análogo a relação religiosa cristã nasce e desenvolve-se no exercício prático da comunidade cristã ou Igreja.

Aos seminaristas receosos da agressividade dos tempos modernos, o Papa recordou que «ninguém escolhe os tempos da sua vida», mas cada um tem de se munir de santidade e de fortaleza para vencer as tentações do «poder, do ter e do prazer». Não estamos em tempos de um sacerdócio confortável.

Aos Consagrados na vida religiosa, o Papa proclamou o carisma do «absoluto de Deus vivido já no tempo histórico». É uma vocação de quem vai à frente.

Aos educadores lembrou que a educar não é somente preparar para um emprego, mas ensinar a viver o mistério da vida.

Impressionou no altar do Domingo a «árvore da vida» junto de uma «montanha de neve e de água», a lembrar o desafio da vida tal como se coloca actualmente: praticamente só a Igreja defende a vida desde a concepção até à morte natural. Os Estados modernos – seja por comodismo, seja por prazer, seja por interesse – ameaçam a vida antes de nasce, na doença e na velhice, e na vida adulta.

Analisando o percurso das Jornadas e a temática nelas desenvolvida (Deus, Cristo, Igreja, Sociedade), vê-se que ela é a resposta aos problemas do nosso tempo que nasceram exactamente da desarmonia entre aquelas realidades: fala-se de Deus sem Cristo nem Igreja, fala-se da Igreja sem hierarquia nem sacramentos nem missão na Sociedade, e fala-se de construir a Sociedade sem Deus nem Cristo nem Igreja, um pouco como pareciam sonhar os grupos contestatários.

 

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