Amanhã

O passado repele-nos a memória, o presente agita--nos, e só o amanhã nos faz acreditar. Este povo de marinheiros que vive num país que esticado de norte a sul como se quisesse arrebanhar o mais que pudesse de mar, sempre andou sob borrascas e tempestades. Em oitocentos anos que leva de História, contam-se pelos dedos de uma mão os anos em que sossegou desta ansiedade de não saber outro futuro senão a inquietude. Por isso, abriga-se do temporal quando este cai e, logo que o sol levanta, sai para a rua como se nada fosse, numa espécie de amnésia com que o tempo e as desventuras o vacinaram. Atormenta-o o dia a dia, ganhou o vício de maldizer a vida, critica quem for que nele mande, é capaz de erguer uma navalha ou premir um gatilho a quem lhe roubou um palmo de terra, ao mesmo tempo que louva e faz vénia a quem o espoliou de milhares de hectares. É uma miopia inexplicável que o faz ver com nitidez um grão de areia perdido na calçada, e o torna cego perante um areal à sua frente.

Anda com o destino agarrado ao lombo e à palavra com que se desculpa de tudo e de nada. Volta e meia, vai aos confins do seu passado buscar exemplos já fossilizados que demonstrem a felicidade que outrora sentiu, numa mentira imensa, sabendo bem que nesse outrora longínquo foi tão ou mais infeliz do que é agora. Mas sabe que ninguém tem poderes para ir ao tal passado certificar-se do que diz. E julga que todos a quem o diz, o acreditam.

Resiste a mudanças. Contudo, berra constantemente a favor de revoluções e reviravoltas que ponham a sociedade direita, já que a sente de pernas pr’ó ar. Mas chegado o momento, recua, porque antes assim

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