Vela, remo e motonáutica foram modalidades praticadas com assiduidade ao longo do rio Douro durante alguns anos. A existência de vários clubes náuticos, de Barqueiros a Barca de Alva, e a organização de competições nacionais deram vida ao rio. Tudo isto foi esmorecendo e agora a animação é quase nula, à excepção da prova de motonáutica de Barca de Alva e alguns concursos de pesca. O Nosso Jornal foi à procura de explicações e falou com o chefe de Estrutura de Missão do Douro, Ricardo Magalhães, e com Paulo Mesquita, um praticante de vela, que assumiu as funções de monitor em várias acções no Douro.
O Douro/rio pode ser uma oferta turística interessante e capitalizadora de dinâmicas que possam potenciar ainda mais a própria oferta e com benefícios para o tecido social e económica da região. Ricardo Magalhães concorda, mas sublinhou, com frontalidade, que o que existe no rio Douro “é muito pontual e casuístico”, sendo necessário “definir uma estratégia de promoção”.
Clubes ligados às actividades náuticas, nomeadamente em Resende, Régua, Pinhão e S. João da Pesqueira, tiveram uma acção importante nesta componente. Num contexto mais abrangente, o responsável pela EMD realça que este tipo de animação nada tem a ver com o turismo fluvial. “Todos nós sabemos que o turismo fluvial já se afirmou e esperamos que cresça. No entanto, nesta dimensão local, que envolva clubes de pesca, associações recreativas, associações culturais, hotelaria, na área envolvente próxima do rio e até mesmo naquela interface entre a toalha de água e a margem, há aí um grande trabalho para fazer”.
Animação diminuta e avulsa
Ricardo Magalhães reconhece falta de organização em torno desta necessidade de potencializar mais as actividades de rio. “A animação do próprio rio tem sido diminuta e avulsa. Com isto não estou a apontar o dedo a ninguém, o que eu queria era que nos organizássemos para que a região também tire partido desse produto que existe. Admito que não se possa fazer de um dia para o outro, mas pelo menos graduarmos no tempo e no espaço esse esforço. A pouca oferta que existe é desorganizada, em que cada um toma a sua própria iniciativa”.
O dirigente aproveitou para lançar uma proposta e um alvitre a todos os agentes. “O desafio passa por organizar todas as iniciativas individuais que ainda existem. Desta forma, estou convencido que terão maiores benefícios, e outras actividades poderão realizar-se. Nós, enquanto Estrutura de Missão, devemos ajudar a criar as condições para que todos os operadores se organizem. A Estrutura de Missão não se pode substituir aos operadores, não temos essa competência. O nosso trabalho é tentar conciliar todos os agentes para a realização de iniciativas, eventos, onde todos, ou quase todos, se revejam”.
Ricardo Magalhães lembra que o Douro mais interior tem uma paisagem distinta, as falésias, as escarpas, por exemplo. “Tudo isto associado à componente náutica pode representar uma mais-valia promocional e atractiva até a nível internacional”.
“Estamos no terceiro ano de um programa de animação no Douro, já tivemos algumas iniciativas, como aquela que trouxe ao Douro um conjunto de embaixadores, que conheceram o rio pela primeira vez, e voltaram aqui novamente. Esta foi uma iniciativa que nunca mais irão esquecer, porque esta região é única e bela”, concluiu.
Rio com óptimas características para a prática de modalidades
Paulo Mesquita, empresário, foi um dos últimos monitores de vela em programas apoiados pelo Governo. Na abordagem que fez ao tema, salientou alguns pormenores interessantes de âmbito desportivo e também ambiental. “Esta é uma oferta turística da região que não está aproveitada. Subir ou descer o Douro em silêncio e unicamente a ouvir o barco a bater na água é diferente do barulho do motor, ensurdecedor, que acaba por ser poluição sonora, que é incomparável com a vela. É uma fileira do turismo que podia ser dinamizada. Ao contrário do motor que está sempre disponível, o vento é aleatório, o perfil dos ventos é faseado: de manhã não há vento, à hora de almoço começa a subir, atinge o seu máximo às 16 ou às 17 horas, depois torna a cair.
Vela preserva o ambiente
A vela é uma modalidade amiga do ambiente. Em termos de sustentabilidade energética limpa, hoje “já possuímos autonomia que permite a existência de sistemas passivos, e tudo com energia do sol”. “Há sete anos que temos aqui o barco no Douro, tentamos não poluir, manter esta riqueza e deixar esta riqueza para os nossos filhos, para o futuro das gerações vindouras”.
O velejador chama a atenção para o facto de haver embarcações que fazem ondas enormes que provocam erosão. “Essas embarcações deveriam ser obrigadas a manter as margens, a criar condições de forma a não se degradar, senão corremos o risco de poluir o rio e, daqui a 10 ou 15 anos, não poderemos tomar banho e não haverá pesca. Estamos a falar de óleos de motor e gasolina que são libertados de barcos. Não sei se limpam aí os depósitos, o que é proibido, mas o certo é que se vê poluição, cheira a combustível”.
De referir que algumas colectividades na região estão ligadas à promoção de boas práticas desportivas ambientais no rio, como o Clube de Caça e Pesca do Alto Douro, o Clube de Vela do Pinhão e os Amigos da Beiradouro. Na Régua, um grupo de trinta elementos costuma também praticar caiaque e tenciona criar um clube náutico. A nível competitivo, ficaram na memória a realização de campeonatos nacionais de remo, de vela e de motonáutica, nos anos setenta e oitenta em frente ao cais fluvial.



