Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2025
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IgrejaAs testemunhas da fé

As testemunhas da fé

1 - Na parte final da carta sobre o Ano da Fé (n.13), o Papa convida a uma reflexão sobre a história da Igreja onde aparecem as testemunhas da fidelidade à fé levada até ao martírio e a debilidade de outros: «Será decisivo revisitar, durante este Ano, a história da nossa fé que faz ver o mistério insondável da santidade entrelaçada com o pecado. Enquanto a primeira põe em evidência a grande contribuição que homens e mulheres prestaram para o crescimento e o progresso da comunidade com o testemunho da sua vida, o segundo deve provocar em todos uma sincera e contínua obra de conversão para experimentar a misericórdia do Pai que vem ao encontro de todos». Na sequência desse convite, o Papa apresenta a vida de Jesus como testemunha da vontade do Pai, e a de Maria como discípula fiel do seu Filho. Esse testemunho da fé prolonga-se na vida dos crentes, tanto na prática do culto como nas obras de caridade e na vida familiar e profissional.

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2 – Quem tem alguma memória da sua vida (em casa, na escola e no trabalho) reconhecerá que a sua fé está marcada pelo comportamento de várias pessoas. Será um belo exercício que cada pessoa e cada família e cada paróquia releia a sua história religiosa para ver as luzes e as sombras que aí existiram.

Da minha parte, lembro, fora de casa, uma catequista com a terceira classe e o modo como, a partir do catecismo de S. Pio X, sabia falar da «doutrina de Jesus» às crianças da aldeia; lembro um jovem operário e o modo como sabia dirigir a oração da manhã e da noite dos lobitos e dos exploradores nos acampamentos dos escuteiros; lembro os homens e mulheres que moravam no fim da aldeia e eram os primeiros a chegar à igreja para a missa do domingo e os últimos a saírem; lembro um pároco humilde e pobre e o modo piedoso e apostólico como fazia as homilias ao povo, mesmo quando tinha à sua frente quatro seminaristas de filosofia e de teologia.

Do Seminário, não esquecerei o testemunho do diretor do Seminário Menor que, após a celebração da Missa, permanecia em ação de graças todo o tempo do nosso pequeno-almoço; nem o brio dos mestres de humanidades e de filosofia que, nas aulas, educavam a inteligência a agir com rigor e, nas atividades lúdicas, despertavam a sensibilidade para o bom gosto e para a arte da comunicação artística; nem a lucidez e coragem do Dr. A. Durão que, nas reflexões espirituais aos seminaristas teólogos nos sábados à noite, segurava com uma das mãos o penso que tapava o ouvido canceroso e com a outra mantinha aberto o caderno das notas do que ia dizendo: «Virá tempo em que triunfará o que é reles e se perderá o sabor pela sã doutrina. Tende, pois, cuidado como fazeis os estudos teológicos e rezai por mim que já iniciei o meu Purgatório». Desses anos lembro ainda os testemunhos do convertido A. Júdice, do jovem Miguel Trigueiros, de um catedrático de Coimbra e vicentino que nos visitava.

Lembro, mais tarde, uma peregrinação ao Sameiro a que presidi e vi juntar-se a mim o P. Dr. José Bacelar e Oliveira, então reitor da Universidade Católica. Vinha de sotaina preta e uma vulgar sobrepeliz pelos ombros. «Como é que se sente um filósofo e teólogo no meio desta multidão que reza e canta enquanto as mães transportam ao colo os filhos pequeninos e os maridos seguram a giga do merendeiro e o garrafão?», perguntei a modos de saudação fraterna. «Sinto-me como peixe na água», respondeu o celebrado jesuíta, e continuou: «a fé é isto, e é este laboratório que dá calor às reflexões que fazemos nas aulas sobre os conteúdos da fé».

3 – Testemunhos análogos captei-os mais tarde em Portugal e no estrangeiro em visitas aos emigrantes: uns empenhados em arranjar catequistas para os filhos, outros no apoio aos concidadãos sem trabalho, outros no arranjo das igrejas francesas.

Recordo entre nós a passagem por uma aldeia do concelho de Mondim de Basto para ver um homem já no fim da vida. Estava deitado num catre não muito afastado da lareira que ardia com lenha do monte. A esposa recebeu-me com respeito e muita serenidade. Estávamos os três. Conversámos um pedaço sobre aquela família, incluindo o casamento e os filhos. «Fomos sempre pobres, mas sempre houve pão. Tivemos cinco filhos, tive-os todos aqui e aqui os criámos. Estão todos vivos e a trabalhar. Eu fazia de costureira e olhei pela casa. O meu marido nunca foi homem de aventuras nem muito ambicioso. Agora está no fim, a caminho de Deus. Apesar de pobres e das lutas da vida «nunca ralhou comigo», e repetia isto como um salmo de meditação naquela liturgia familiar às portas da eternidade.

Outros poderão apresentar o heroísmo dos missionários, dos perseguidos e dos políticos cristãos como Adenauer e Shumann. A nós, pastores destas terras de religião tradicional, fica-nos a alegria de testemunhar a ação do Espírito Santo em cristãos cujos nomes não constam dos anais dos bolandistas mas que estão incluídos no inciso das anáforas eucarísticas dos «que viveram na vossa amizade».

Não há nenhum crente cuja fé haja nascido dos livros. Dos livros veio algum esclarecimento cultural. A fé cresce no contacto com outros cristãos que, sem disso se aperceberem alimentam a fé dos outros. No seu depoimento sobre a crise de fé na Europa, os bispos alemães são de opinião que ela não resulta propriamente do secularismo da sociedade mas do descuido das famílias na transmissão da fé aos filhos.

 

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