Integrado Fundo Manuel Rebelo Cardona, o livro “Geometria Analítica Plana”, da autoria de António Palma Fernandes e datado de 1950, foi o número 100 mil a integrar a colecção da Biblioteca Municipal Dr. Júlio Teixeira, que nos últimos nove anos triplicou o seu espólio.
A obra faz parte de um fundo doado pelo advogado Manuel Cardona que, num total de três mil títulos, tem sido incorporada na instituição num processo que deverá se prolongar até ao final do ano.
“O livro pertenceu a biblioteca particular do seu pai, com o mesmo nome, Manuel Cardona, um importante professor do liceu que morreu há mais de 30 anos, mas que deixa uma memória que perdura em muitos vila-realenses”, explicou Vítor Nogueira, diretor da biblioteca pública vila-realense, revelando que ainda hoje o docente de matemática é “muito respeitado do ponto de vista da pedagogia mas pela sua participação cívica”.
A publicação, apesar de destinada ao ensino, nomeadamente ao 7º ano do liceu da altura, o que corresponde agora ao secundário, está em “excelente estado de conservação” por nunca ter sido utilizada de facto por um aluno. “Está autografado pelo autor, António Palma Fernandes, também professor de matemática, que o dedica ao colega de Vila Real”, explicou Vítor Nogueira.
Com três carimbos, um na folha de rosto com o devido registo, e mais dois identificativos da sua propriedade (Biblioteca de Vila Real) e do fundo que integra (Fundo Dr. Manuel Rebelo Cardona), na página 82 e na última página impressa, antes de ser registado o livro passou por todo um processo de higienização e ainda terá que passar outras etapas de identificação até, efetivamente, partilhar as prateleiras com outras importantes obras. “Vai fazer parte do Fundo Histórico da Biblioteca, por isso é reservado, no entanto, todos os livros podem ser consultados”, garantiu o diretor.
Criada em 1839, a biblioteca de Vila Real foi “uma das primeiras bibliotecas públicas portuguesas” e o seu espólio inicial, no total de cerca de cinco mil livros, resultou da união dos fundos documentais e bibliográficos dos extintos Conventos de São Francisco e de São Domingos.
“É claro que desse primeiro núcleo até aos 100 mil livros a que hoje chegamos, vai uma história muito grande, muito longa”, sublinhou Vítor Nogueira lembrando, por exemplo, que, ao longo de mais de 150 anos, a instituição passou por vários edifícios até que, em 2006, encontrou uma ‘casa’ própria, construída de raiz.
Há nove anos, aquando da inauguração do novo edifício, a biblioteca tinha cerca de 30 mil exemplares, tendo assim, desde então, triplicado o seu espólio, isso graças a um investimento público, por parte da autarquia e do Estado Central, mas também ao altruísmo de muitos cidadãos que doaram parte ou a totalidade das suas bibliotecas privadas. “Sem menosprezar outros fundos igualmente importantes, temos, por exemplo, uma doação recente do embaixador Francisco Seixas da Costa, que, do ponto de vista quantitativo é a mais relevante dos últimos anos”, confirmou o diretor, deixando a garantia que todas “as bibliotecas particulares” são tratadas como um todo e cada livro recebe todo o respeito e atenção ao nível da sua manutenção e conservação.
“Temos tudo, como na farmácia”
Dos 100 mil livros que a biblioteca agora possui, mais de dez mil estão integrados no chamado Fundo Antigo da biblioteca, sendo de sublinhar a existência de cerca de “meia dúzia” incunábulos, ou seja, obras publicadas antes de 1500, e cerca de uma centena de pós incunábulos, publicações que datam entre 1500 e 1530.
Além de rica em termos de publicações centenárias, a biblioteca de Vila Real tem conseguido marcar a diferença através da garantia da diversidade. “Não quer dizer que não compremos esporadicamente livros para o Fundo Antigo, mas o esforço é comprar os livros que vão sendo publicados”, revelou Vítor Nogueira, explicando que essa nem sempre é uma tarefa fácil, tendo em conta que em Portugal são lançados diariamente cerca 40 títulos novos.
Assim, o orçamento da biblioteca é utilizado de acordo com alguns critérios. “Procuramos, em primeiro lugar, garantir a diversidade, para não estarmos a beneficiar uma área em detrimento de outra, e depois procuramos escolher o que qualitativamente seja importante”, revelou.
Desde os livros mais antigos, com 500 anos de história, até aos romances mais recentes, a biblioteca “tem tudo, como na farmácia”, brincou o seu diretor, revelando que, no fundo, o objetivo é “ter livros a pensar em toda a gente”, desde livros técnicos à seções de literatura em língua estrangeira (russo, galego ou alemão), passando por muitas outras temáticas, como os livros infantis ou os títulos periódicos.
Outro aspeto importante da biblioteca é o facto de dar especial atenção ao seu Fundo Local, uma área que tem exigido algum esforço e dedicação mas que a torna “diferente de todas as outras”.
Desde 2008, a biblioteca de Vila Real recebe uma média de cerca de 70 e os 80 mil visitantes por ano, ou seja entre seis a sete mil por mês. Segundo as últimas estatísticas disponíveis, de 2014, a biblioteca tinha 7.300 leitores inscritos, que fizeram ‘circular’, através de serviço de empréstimos domiciliários, uma média de mil livros por mês.




