Vila RealCampanha no sector vitícola para prevenir acidentes

Campanha no sector vitícola para prevenir acidentes

Numa acção de prevenção de riscos na área vitícola da região duriense, a Autoridade para as Condições de Trabalho, antes desta vindima, visitou 88 empresas, sendo que 62 foram objecto de procedimentos não coercivos. O reflexo desta iniciativa, aliada a uma maior consciencialização por parte dos operadores, levou a que a vindima decorresse sem acidentes graves, não se registando qualquer vítima mortal.

Na última quinta-feira, na Régua, nas instalações do IPTM, decorreu mais uma acção da Autoridade para as Condições de Trabalho, ACT, que desta vez incidiu sobre a prevenção de riscos no sector da viticultura e que mobilizou agentes e dezenas de estudantes de alguns estabelecimentos de ensino.

“Riscos nos trabalhos Agrícolas – Manuel Pedroso” e “Riscos Químicos nos trabalhos de Vinificação – Filipe Mota Ribeiro”, foram dois dos temas abordados. Dominando a área de Trabalhos em Espaços Confinados/Adegas, a inspectora Maria do Carmo Quintela deu a conhecer ao Nosso Jornal algumas das situações de risco mais sensíveis na região. “Temos que estar sempre atentos. Onde há risco tem que haver preocupação. Nesta área, já notámos algumas melhorias significativas, mas ainda encontramos algumas situações que nos deixaram preocupados, nomeadamente a utilização dos produtos fitofarmacêuticos e dos produtos químicos, da maquinaria agrícola, no entanto as coisas estão melhor”.

Relativamente à taxa de sinistralidade, ainda não há dados concretos. “Neste momento, não disponho de dados para dizer que no Douro houve menos acidentes. Posso apenas afirmar que as pessoas já têm consciência de que há algumas coisas que não se devem fazer e têm mais cuidado”.

Maria Quintela lembrou algumas práticas que não se devem fazer e onde acontecem mais acidentes, alguns com vítimas mortais. “Os casos de maior gravidade acontecem muito na preparação da adega, na lavagem das cubas e principalmente na parte da fermentação. Infelizmente, tem havido acidentes graves como sucedeu ainda no ano passado e que poderiam ser perfeitamente evitáveis”.

Este ano, uma equipa da ACT fez uma campanha de sensibilização junto de adegas, empresas e produtores-engarrafadores da região duriense. “O feedback que tivemos nestas visitas foi precisamente o eco dessas mortes que são sempre de lamentar, mas que sirvam para alguma coisa, pelo menos para alertar os outros. Antes da vindima, fizemos as visitas, deixámos as notificações, que foram cumpridas praticamente na íntegra. Correu muito bem esta acção e, provavelmente, iremos continuar este tipo de sensibilização, estando previstas outras para o futuro”.

A base desta acção passava por verificar e mostrar aos operadores o que estava mal, ou estava menos bem, para as pessoas terem tempo de refazer ou corrigir o que estava mal. “Isso aconteceu e foi muito positivo”, concluiu.

 

Prevenção vai da vinha ao vinho

Por sua vez, José Pinto Fernandes, director do Centro Local do Douro, salientou a importância da acção realizada na Régua, ao mesmo tempo que realçou outros pormenores da acção do ACT na campanha da vindima deste ano. “Fizemos esta acção essencialmente para ver as situações mais complexas, embora isto seja feito todos os anos”.

Ao todo foram visitadas 88 empresas, “sendo que 62 foram objecto de procedimentos, não coercivos, e foram identificadas situações que mereciam correcção, que depois foram corrigidas”.

Quanto à prevenção de riscos, este técnico corroborou a ideia de que ainda há trabalho a fazer. “Este ano não houve nada de grave, mas frequentemente ocorrerem acidentes, nomeadamente com falta de protecção de cardans, veios de transmissão e reviramento de tractores. Uma outra preocupação tem ver com os gases formados na altura da fermentação. Há dois anos houve aqui acidentes mortais em operações de limpeza de cubas e a nossa acção incidiu sobre esses temas para ver o que estava a ser feito e em que medida se pode melhorar”.

Este responsável lembrou ainda que nas próprias vinhas há acidentes que são evitáveis. “Tirando os tractores, uma das questões que nos preocupa é a utilização dos químicos nas vinhas e a formação de gases tóxicos na altura da fermentação. São coisas (gases) que não se vêem, que não se sentem, a maior parte das vezes nem sequer se cheiram, mas o risco existe. E é um risco que muitas vezes não é imediato mas que depois se traduz em situações muito complicadas, após vários anos”.

“Este ano, a vindima correu bem. Os acidentes ocorrem sempre, mas durante a colheita deste ano não houve nada de significativo”. José Pinto salientou que para estes dados tem concorrido o interesse maior das entidades, desde empregadores, trabalhadores, que têm cada vez mais interesse em assistir a este tipo de acções sobre a prevenção de riscos.

 

Adegas cada vez mais sensibilizadas

A Adega Cooperativa de Murça tem sido uma das que mais se preocupa com a segurança no trabalho. O seu gestor, Mário Artur, falou sobre o que foi feito na Adega. “Para além da certificação HACCP, que implica um rigoroso controle, temos um seguro de acidentes de trabalho nesta área de risco, ou seja, são identificados e tratados pontos de risco para serem colmatados de ano para o ano. É uma máxima que a Adega tem vindo sempre a cumprir”.

A Adega Cooperativa de Santa Marta de Penaguião também tem vindo a percorrer o caminho certo na área do risco e prevenção de acidentes. Uma fonte desta adega contou, ao Nosso Jornal, que “a época das vindimas merece uma atenção especial”. Para o efeito, são realizadas acções de formação para que as pessoas não corram riscos.

Nesta Adega, segundo o mesmo responsável, nos últimos 20 anos “não ocorreu nenhum acidente mortal”.

Ao que apurámos, o rigor e a segurança na Adega de Vila Real também é uma nota presente.

Quando se fala de condições de trabalho no Douro, vem sempre à memória o cesto vindimo, que durante décadas foi carregado às costas pelos trabalhadores das vinhas.

José Pinto Fernandes não revelou saudosismo mas um sentido prático quando abordou esta questão. “O desaparecimento do próprio cesto implica o melhoramento do próprio vinho. Nem tudo o que é tradicional é bom, e é evidente que hoje as coisas não se processam como há 20 anos. As coisas têm de evoluir. O facto de se utilizar um cesto de vindima não significa que se tenha de utilizar um cesto com capacidade para 50 litros.

Poder-se-á utilizar mas que tenha uma capacidade de carga mais adequada ao ser humano. O cesto não é impeditivo, mas nem me parece rentável que se continue a usar o cesto.

Em termos de ergonomia, é sempre muito complicado para o trabalhador. Uma coisa é estar sujeito a uma carga de 15 ou 20 quilos, outra coisa é estar sujeito a uma carga de 40 quilos”, concluiu.

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