Terça-feira, 19 de Outubro de 2021

Casamento, família e nova cultura

1 - Realizou-se no sábado passado, dia de S. José, no centro pastoral da paróquia de Vila Pouca de Aguiar, o 1º Encontro Diocesano da Família, o qual decorreu das dez horas às dezasseis e trinta. Compareceram casais de toda a diocese, excepto do Barroso, do Baixo Tâmega e de Valpaços, sendo um número significativo dos casais da região do Douro. A maior parte dos casais presentes estava integrado nas Equipas de Nossa Senhora, e alguns casais mais novos haviam frequentado o CPM (cursos de preparação para o matrimónio). O grupo total não foi muito elevado, cinquenta pessoas, havendo casais que celebraram vinte e cinco e cinquenta anos de matrimónio, casais com cinco anos, e casais de datas atípicas.

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Após a oração presidida por Mons. Salvador, Secretário diocesano da Pastoral da Família, ele mesmo deu uma informação dos documentos oficiais da Igreja sobre a toda a problemática familiar, desde o casamento católico à preparação dos noivos, à natalidade, à fecundação laboratorial, à educação dos filhos e à política escolar, à vida da família e trabalho do casal, ao divórcio e à comunhão dos divorciados, aos idosos, aos passatempos e à influência dos meios de comunicação social no interior da família, à relação da família e a política. Essa documentação revela o mar agitado em que navega a família.

Um casal, João Paulo e Teresa, apresentou o seu testemunho sobre a evolução da fé durante o noivado e dentro do casamento, com as doenças dos filhos pelo meio. O bispo da diocese aproveitou para informar que a transmissão da fé é hoje um desafio sério que se põe a todas as famílias e a todos os fiéis, e ela será o tema do Sínodo dos Bispos em 2012, cujo «instrumento de trabalho» já chegou.

2 – A jornada diocesana deste ano foi exactamente dedicada às «mudanças culturais sobre o amor e o casamento». Antes do almoço, o dr. José Carlos Costa, psicólogo, distribuiu um inquérito às pessoas (e não por casal, a fim de deixar liberdade pessoal) para que cada um respondesse até ao almoço.

Durante a refeição, ele próprio fez a síntese dos trabalhos e, no começo da tarde, apresentou a sua reflexão, entremeada com a intervenção catequética do bispo da diocese. Ao concluir os trabalhos, perguntou-se aos casais se lhes parecia útil fazer anualmente em cada concelho (para criar alguma consciência local e evitar despesas) uma celebração conjunta dos respectivos casais que celebrem datas jubilares, pergunta que obteve pleno assentimento. Perguntou–se ainda se o CPM continua válido. A resposta foi positiva, «contanto que seja sério e tenha em conta as realidades de hoje», disseram alguns, «porque se for aligeirado não vale a pena o trabalho. Para isso, os sacerdotes devem ser preparados». Perguntou-se, finalmente, se as Equipas de Nossa Senhora ajudam os casais. «Que sim, e muito», responderam alguns casais.

3- Aproveitando o que ali se disse, deixo aqui algumas reflexões sobre as mudanças culturais e os desafios que eles colocam à Família e ao Casamento católicos.

Em primeiro lugar, convém anotar que nas paróquias há pouca pastoral específica para os casais, sendo quase todo o trabalho pastoral orientado para os fiéis individualmente. A prova está no facto de os casais presentes serem os que estão envolvidos em movimentos familiares. Também o mapa da evolução dos casamentos na diocese (descida anual dos casamentos católicos, aumento dos casamentos civis e uniões de facto e dos divórcios), número de abortos oficializados, descida constante da natalidade e já alguns sinais de dádiva de gâmetas sexuais para a fecundação anónima no laboratório, revelam que está em curso uma profunda mudança cultural sobre o amor, a qual destrói as bases do casamento e da família cristãos.

4 – Durante séculos, o casamento e a família cristãos eram facilmente assumidos porque «era aquilo que era costume». As estruturas religiosas e civis (igreja, estado, escola, jornais e opinião pública) eram andaimes uniformes que ajudavam à construção da família, e eram depois muletas que a sustentavam e ajudavam a recuperar dos abalos sísmicos do amor. Acerca do casamento e da família, aceitavam-se sem discutir umas tantas verdades e regras fixas. Essas verdades podem resumir-se em três: o casamento é uma «instituição» e gera outra instituição (a família), sendo as pessoas livres de casar ou não casar mas não têm liberdade de inventar e de desfazer casamentos; a instituição familiar tem uma «missão» – ajuda mútua do homem e mulher e, simultaneamente, gerar e educar os filhos; diante do poder político, a instituição familiar afirma-se «anterior ao estado» e contribui para a sociedade e a igreja sobretudo pelo fornecimento de homens e de mulheres capazes de exercer aí vocações civis e religiosas.

Por debaixo destas atitudes comportamentais, está a verdade da pessoa humana na sua dualidade sexual, orientada no casamento para a geração, e o casamento sacramento é a oferta da vida dos noivos a Deus, sendo eles próprios os sacerdotes do amor, e sinal do amor permanente de Cristo pela Igreja. O padre ali presente é uma testemunha desse ofertório sagrado. Esse casamento católico não era nem é garantia de casais perfeitos nem de filhos super dotados. Os filhos não se geram por meio de máquinas nem se fazem exames pré natais para detectar os filhos doentes e os eliminar. Aceitam-se os filhos como um dom, amam-se para além dos seus defeitos e dos seus erros, e não por eles serem os mais perfeitos nem homens e mulheres de sucesso.

5A mudança cultural altera os três pilares referidos: o casamento não é uma instituição mas «um acordo mútuo» que durará o tempo que o casal entender; o casamento e a família são coisas distintas, podendo haver casamento sem família e família sem casamento; o casamento destina-se à «felicidade» do casal; a família delega no estado a educação dos filhos e o cuidado dos velhos, a educação religiosa resume-se às festas e a instrução destina-se a fazer dos filhos pessoas de sucesso.

Por debaixo desta cultura está a ideia da «autonomia e liberdade humanas» que tudo separa e reinventa: separa o amor da dualidade sexual, podendo optar-se igualmente pela homo ou hetero sexualidade; separa a sexualidade da geração humana, podendo haver sexualidade sem geração e geração sem sexualidade, pelo recurso a máquinas e outra mulher; separa os próprios gâmetas sexuais da personalidade, tomando aqueles como produtos que o homem ou mulher podem negociar. Nesta cultura, não há lugar para o casamento religioso como oferecimento a Deus, pois o homem e a mulher assumem-se de modo autónomo, sem missão antecipadamente confiada por Deus.

Esta mentalidade é hoje difundida pelos actuais meios de comunicação social (jornais, notícias e passatempos televisivos, internet, teatro, cinema, literatura e canções), e inspira a legislação sobre o casamento, a família, a escola e a sexualidade.

Deste modo, o casamento e a família católicos não se podem construir com os andaimes civis dos estados modernos, mas unicamente pela opção e coragem dos noivos cristãos. Tais casamentos tendem a ser monumentos isolados no meio da floresta das liberdades. São opções de vida diametralmente opostas, e pastoralmente, os noivos que optarem pelo casamento cristão devem saber explicar aos outros as razões da sua opção, e os novos estilos de casamentos devem assumir-se até ao fim e não pedir depois à Igreja que os trate como os outros, quer na comunhão, quer no baptismos dos filhos, quer na função de padrinhos.

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