Segunda-feira, 25 de Outubro de 2021

Colégios do Distrito lançam “SOS” à Educação

A publicação no final de Dezembro da portaria que corta 30 por cento no apoio do Governo dado às escolas privadas, com oferta pública de ensino, continua na ordem do dia. Os estabelecimentos de ensino afectados não se conformam e várias manifestações de descontentamento têm surgido. No distrito de Vila Real, alguns Colégios são atingidos pela redução de apoios financeiros, como o Salesiano de S. João Bosco, em Poiares, e o da Boavista, em Vila Real.

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As escolas e os professores contestam que os cortes sejam iguais para todos, quando cada colégio tem uma especificidade. O Nosso Jornal abordou este assunto com duas prestigiadas unidades de ensino do Distrito, cujo papel educativo tem sido determinante junto da comunidade. O director do Colégio da Boavista, António Gaspar, assumiu uma posição crítica face à nova Lei. “Estou preocupado, pois isto está feito ao contrário. A opinião publica está a ser intoxicada com informação errada, ao dizer-se que o Estado, com as suas escolas, gasta menos dinheiro por aluno, mas isso não corresponde à verdade. O mesmo aluno num estabelecimento de ensino privado fica muito mais barato ao Estado”.

“Quem fica penalizado são os alunos”, porque têm a possibilidade de escolher um ensino completamente gratuito exactamente como nas escolas do Estado e com resultados, a nível de sucesso escolar, à vista de todos”, sustentou. António Gaspar considera que por trás está uma questão ideológica.

Neste momento, o Colégio da Boavista tem 750 alunos, desde o primeiro ano do ensino básico até ao 12º, mas com contrato de associação do 5º ao 12º ano, num total de vinte turmas e quase 450 alunos. Se o governo reduzir 30 por cento de imediato, o director do Colégio da Boavista admitiu consequências em termos de sustentabilidade. “Claro que isso obriga-nos a um esforço enorme para ir pagando aos funcionários e professores, contudo temos a outra parte do Colégio que vai cobrindo, e este ano lectivo temos as coisas controladas. Para o próximo ano, espero que haja bom senso, senão houver, são as famílias e os alunos os mais afectados, e o Colégio que terá menos alunos”.

António Gaspar mantém contudo uma expectativa positiva. “Não acredito que o país esteja em condições de gastar mais em menos qualidade. Quem é responsável vai pensar melhor sobre este assunto e chegar a uma conclusão realista e acalmar o sector. O documento do senhor Presidente da República diz que os pais que escolham o ensino particular gratuito, deve ser o Estado a pagar o mesmo quantitativo que é destinado a cada aluno das escolas públicas. Isto é uma questão de escolha. Se os alunos saírem dos colégios para as outras escolas, será necessário contratar mais professores, ter instalações maiores e isso traz mais gastos”.

Confrontado com a declaração da Ministra da Educação, Isabel Alçada, sobre a existência de piscinas em alguns colégios, o director refere que, “ infelizmente, o Colégio da Boavista não tem piscina nem escola de equitação como disse a senhora Ministra, numa frase infeliz. Os nossos alunos vão à piscina graças a acordo que temos com o Ginásio Clube de Vila Real”.

O Colégio Salesiano de Poiares, com contrato de associação, é outro estabelecimento de ensino afectado pela redução de apoio financeiro. Aqui, a situação e o enquadramento do Colégio é diferente. Inserido numa zona rural, estende a sua acção a centenas de alunos, tendo 60 internos. Desde que a posição do Governo foi conhecida, duas manifestações de repúdio e de sensibilização aconteceram por parte dos alunos e encarregados de educação. Na última quinta-feira, realizou-se uma manifestação que juntou cerca de 200 alunos e dezenas de encarregados de educação. O seu representante José Salcedas explicou, ao Nosso Jornal, que a ideia da concentração passou por ser um acto simbólico mas todos estão contra a redução nos apoios ao Colégio. “O Estado não pode meter no mesmo saco todas as escolas, ignorando a realidade de cada uma em termos de inserção, de desempenho e de sustentabilidade. O Colégio de Poiares não é uma escola de ricos, é um estabelecimento de ensino onde todos têm lugar. De uma vez por todas, o Estado deve pensar a educação connosco e deve apoiar as famílias, deixando-as decidir livremente”.

Depois de sublinhar que as câmaras se devem associar a esta causa comum como faz a de Peso da Régua, o director Pedagógico do Colégio S. João Bosco, Paulo Silva, assegurou que “a instituição não quer fechar a escola”. “ Não temos piscina nem pista equestre, temos um campo de terra onde os nossos jovens praticam desporto. Também não estamos a instrumentalizar os alunos, como por vezes é afirmado. Aliás, são eles próprios e os encarregados de educação que estão na linha da frente na defesa da sustentabilidade financeira do nosso Colégio”. Paulo Silva voltou a bater na tecla de que “cada escola é uma realidade diferente”. “É uma asneira criar uma legislação para todas as escolas sem auscultarem localmente a sua vivência, o seu papel educativo e social. Se continuarmos assim, podemos chegar ao final de Agosto com um prejuízo que pode rondar entre os 100 e 200 mil euros, o que é incomportável”.

Este responsável deixou uma opinião pertinente. “Por trás destas medidas redutoras não haverá a intenção de esvaziar estas unidades de ensino ligadas à igreja das funções educativas? Não será também um ataque à igreja? Já pensou o que seria para esta região o encerramento das actividades lectivas e o empobrecimento e a desertificação causadas por esta decisão? As nossas portas quando se abrem não perguntam pelos valores, mas sim pelo interesse na formação académica, cívica e religiosa dos nossos alunos. Não vamos desistir da nossa função de educar e evangelizar”.

Paulo Silva considerou ainda que no Colégio Salesiano os alunos são conhecidos pelos seus nomes. “Se formos obrigados a assinar o contrato com o Governo, iremos fazer sob protesto”, garantiu. Entretanto, o Ministério da Educação apresentou, ontem, um estudo sobre a rede escolar, tendo por base as escolas da rede pública e os 93 colégios com contrato de associação, a partir do qual o Governo pretende propor o número de turmas a financiar. Este documento foi elaborado pela Universidade de Coimbra, com o objectivo de garantir a estabilidade da rede pública de ensino nos próximos anos. Neste momento, frequentam as escolas particulares mais de 50 mil alunos. Número que, no entanto, deverá sofrer alterações no próximo ano, em função da capacidade das escolas públicas que se encontrem nas redondezas.

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