Terça-feira, 19 de Outubro de 2021
Victor Pereira
Pároco. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Cumprir Ritos e Preceitos ou Viver em Comunidade?

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Sou levado a crer que os cristãos que habitualmente participavam e participam na vida da Igreja o fazem por convicção, vão à Igreja por verdadeira fé, e que sabem compreender os tempos excecionais que estamos a viver. Se assim não for, que pobres cristãos somos! O que deve motivar um cristão a participar na vida da Igreja é o amor a Deus e aos outros, é o fascínio por Jesus Cristo e pelo seu Reino, é a alegria de ser e pertencer à Igreja, é o encanto pela fé. Não é o cumprimento formal de obrigações e preceitos ou a repetição fria de hábitos que dão sentido à vivência da fé cristã. Não é por agora se quebrarem os hábitos e os dinamismos das nossas rotinas que vamos abandonar a nossa participação na vida da Igreja. Se assim acontecer, debelada a pandemia, teremos de concluir que estamos ainda num estado de infantilidade cristã. Andamos a reboque da cultura em que nascemos e dos costumes que assimilámos, mas, fora isso, não sabemos viver a fé de uma forma madura e pessoal. Quem estiver focado e fascinado por Cristo, duvido muito que abandone a vida da Igreja.

Quando voltámos às celebrações litúrgicas, reparei que a maior urgência sentida era as missas pelos defuntos, receber a comunhão, cumprir o preceito dominical, dar sentido ao domingo, mas não vi ninguém a falar da comunidade e da necessidade e do gosto de estar com os outros, de celebrar a vida e a fé com os outros, de quem se sentia profundas saudades. Vejo muitas pessoas a terem saudade do rito da missa, mas não vejo muitas pessoas a manifestarem saudade pela comunidade, de viver um verdadeiro encontro com os outros irmãos na fé e de se aprofundar a comunhão de vida. Há excesso de culto e preceitos e deficit de comunidade em muitas comunidades. Um claro sintoma da frieza que alimentamos nas nossas celebrações dominicais e da experiência pobre de comunidade que fazemos na Igreja, não abundando o espírito e a consciência de comunidade.

Devíamos falar menos no «ir à missa» e falar mais no estar com a comunidade, essencial para se viver o cristianismo na sua plenitude. Falta-nos a noção de que a missa também é um encontro com os outros, é uma comunidade, de que faço parte, que se alimenta e celebra, que tem gosto de estar junta e partilhar a vida. É uma dimensão que tem de ser seriamente repensada. Sem comunidade e em comunidade não há cristianismo de verdade. 

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