Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2021
Victor Pereira
Pároco. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Dar Tempo ao Silêncio e à Interioridade

Fundada no século 11, pelo monge alemão S. Bruno, a ordem cartuxa vai abandonar dolorosamente Portugal, durante este mês de outubro.

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O único mosteiro masculino de clausura existente no nosso país, o mosteiro de Santa Maria Scala Coeli, em Évora, vai fechar portas e os seus monges vão ser transferidos para a Cartuxa de Montalegre, a vinte quilómetros de Barcelona, Espanha. As razões já são há muito conhecidas: escassez de vocações para esta radical vida monástica e a idade avançada dos únicos quatro monges ali presentes, dois com oitenta anos e dois com noventa anos. Precisam de uma comunidade maior onde podem ter os devidos cuidados próprios da idade. É considerada a ordem mais austera do Cristianismo.

Faço referência a esta pesarosa notícia para toda a Igreja portuguesa pelo seu simbolismo e pela reflexão que ela pode provocar na nossa forma de educar e no nosso estilo de vida moderno. Os monges cartusianos chamavam a atenção para um outro estilo de vida, centrado na interioridade, nos valores espirituais e na busca de Deus, com quem o ser humano verdadeiramente se realiza e preenche.
Há dias, num programa da Antena 1, o Padre Anselmo Borges afirmava: “Passamos o tempo a dedar nos telemóveis e nos tablets. Vivemos uma vida que não permite pensar, vivemos muito depressa, a correr, vivemos no tsunami das informações e não estamos a dar a possibilidade de criar pessoas estruturadas. Há muita informação, um tsunami de informações, e depois não há realmente uma verdadeira educação. A pressa faz com que as pessoas não tenham um espaço de vida interior, para pensar, parar e refletir”.

Um dos dramas que existe nos tempos atuais é que expulsámos da vida o pensar, o refletir e o silêncio, tão importantes para darmos beleza, equilíbrio, densidade e profundidade à vida. Vivemos atolados em ruído, sempre virados para fora de nós mesmos, a encarar todos os dias uma avalanche de emoções e informações, não nos restando senão viver na banalidade e com grande desordem e instabilidade em todos os campos da vida. Não estamos a seguir um bom caminho quando não damos tempo ao pensamento, à reflexão e à interioridade do ser humano. Só vivendo a partir de dentro, da nossa interioridade, poderemos ser livres, autênticos, equilibrados, fecundos, sensatos e felizes. 

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