Ao propor ao cristão uma nova relação com o mundo, a Igreja não o faz como se a vida no mundo fosse um arraial de aventuras. Quando se diz de um médico que é dedicado aos doentes, isso não significa que ele exclua remédios e dietas, mas que os sabe prescrever com rigor e oportunidade. Também esta constituição, ao mesmo tempo que propõe ao cristão o empenho no mundo, prescreve a oração e os sacramentos como ajuda e incentivo, e isso foi menosprezado.
2 – Enquanto se fazia a redação do texto, um dos padres conciliares chamou a atenção para o tom demasiado otimista da versão que estava a ser discutida, a qual deixava no leitor a sensação de que a raça humana é constituída de anjos, e que basta anunciar uma série de princípios para tudo correr sobre esferas.
De facto, o mundo, obra do Criador, está cheio de recursos para bem da Humanidade atual e futura. A Encarnação do Verbo e depois a Ressurreição de Jesus acrescentaram a todo o universo e a toda a história da terra um sentido maior, e a terra acompanhará o homem na sua glorificação final. Não está satanizada, a precisar de exorcismos permanentes, como parecia dar a entender uma certa praxe de séculos.
Mas o mundo não é só a natureza, é também a pessoa humana, e este é o segundo sentido da palavra mundo. Sendo radicalmente bom, o homem está ferido de um certo desequilíbrio interior, como refere a constituição nos n.º 13 e 37, o qual se designa, no catecismo, com o nome de «pecado original», pecado histórico, inserido na humanidade. É essa fragilidade que ameaça minar as estruturas humanas e a renovação do mundo. Cristo ressuscitado venceu, mas não destruiu essa fragilidade, e é por isso que a história avança com alguma ambiguidade. O esquecimento desta verdade é a primeira causa de desvios: a um pessimismo derrotista sucedeu um otimismo ingénuo.
3 – O outro desvio é a incorreta compreensão da chamada «autonomia das realidades terrestres» de que fala a constituição no nº. 36.
O sentido exato dessa autonomia é a afirmação de que a natureza (a geração das plantas e dos animais, a circulação dos astros, o funcionamento dos órgãos do corpo) obedece a leis escritas na própria natureza que se exprimem em regras matemáticas e físicas, sem precisarem de ritos do feiticeiro, nem de bênçãos ou maldições. Têm luz própria independentemente dos ritos religiosos. Mesmo um descrente pode conhecer e utilizar proveitosamente esses mecanismos naturais, e o conhecimento científico liberta os povos de costumes ancestrais de feitiços e ritos de magia e de seitas modernas que pretendem resolver problemas e doenças de todo o género. A religião autêntica não tem por missão substituir o conhecimento científico das coisas, mas dirige-se à inteligência e à vontade do homem para que saiba usar esses bens e colocá-los ao serviço do Bem comum. A própria constituição diz no nº. 33 que «muitas coisas que antigamente o homem aguardava de forças superiores, consegue-o já hoje pelo seu trabalho».
Isto não significa, contudo, que o mundo não tenha uma relação com Deus e que o homem possa viver sem regras morais: Se por autonomia do temporal se entende que as coisas criadas não dependem do Criador e que o homem pode usá-las de tal maneira que as não refira ao Criador, não há ninguém que não perceba quão falsas são tais afirmações. Na verdade, logo que falte o apoio divino e a esperança da vida eterna, a dignidade do homem é gravissimamente lesada, como acontece frequentemente em nossos dias, e o enigma da vida e da morte fica sem solução levando os homens não raro ao abismo do desespero (GS 21).
Estes dois desvios (o esquecimento da fragilidade pecaminosa do homem, e a separação radical das realidades terrestres do plano de Deus) fazem com que esta constituição tenha sido fonte de erros pastorais e sociais. Por parte dos sacerdotes e dos religiosos tem havido outro desvio: deixar o ministério da Palavra, da Oração e dos Sacramentos para se dedicarem diretamente às tarefas do mundo, mormente à ação social e política, julgando assim amar mais o povo e resolvendo problemas sociais que os leigos não sabiam enfrentar!
4 – Fala-se, às vezes, dos desvios gerais do Concílio. Um grande professor da Sorbone, católico e filósofo, que o Paulo VI convidou para auditor no Concílio, Jean Guitton, apresentou, na década de setenta, uma espécie de balanço dos desvios do Concílio. Refere ele que, depois do Concílio, alguns setores da Igreja esqueceram o que ele chama as «verdades verticais» e fixaram-se unicamente nas «verdades horizontais». Por verdades verticais, entende ele, na continuação de Santo Agostinho, o sentido de Deus, a oração de adoração, o pecado e a redenção, a penitência e a renovação das consciências, a eternidade e a justiça de Deus; por «verdades horizontais» entende a solidariedade humana, a tolerância, o perdão dos inimigos, a aceitação das diferenças e o ecumenismo. Ora, acrescenta aquele pensador, as verdades horizontais só se seguram cruzadas com as verticais, como acontece no Crucifixo. Sem elas, caem no chão, e são ineficazes.
Foi isso que aconteceu em muitos setores da Igreja: deixou-se a oração, o arrependimento, o confessionário, e as celebrações passaram a fazer-se unicamente com as verdades horizontais, do que resultou uma liturgia popular, o abandono da oração e um enorme confusão dentro das igrejas. Na política e nas outras atividades do mundo a confusão foi análoga, e houve ingenuidades de todo o tamanho no que concerne a jogos políticos, lutas sindicalistas e greves. O Papa João XXIII, que aquele professor chama «um homem de Deus, espantosamente simples e conservador», já não assistiu a nada disso, nem era isso que ele queria nem é isso que vem na constituição pastoral Gaudium et Spes, mas foi isso que alguns fizeram dela. Releia-se agora integralmente a constituição, e com os olhos abertos.



