Sexta-feira, 30 de Setembro de 2022
Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

É tempo de ir aos cemitérios!

A hora que aqui se passa é a mais longa das nossas vidas.

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Ninguém fala. Não há música nem discursos, nem se fala da conspurcada política. Aqui, até parece que todas as pessoas são amigas e que os pecados nunca existiram. Aqui, gira uma versão fúnebre do jogo efémero da vida. Aqui, pensa-se que se está no fim de uma época e no começo de outra. Aqui nada mais há para além da crepitação do tempo que sobe, do tempo que foge, do tempo sem tempo de o agarrarmos.

É tempo de ir aos cemitérios porque se ouvem ínfimas perceções de chamamentos quase calados no sentir de cada um. Na força da fé parece ouvirem-se vozes, que há muito não se ouviam porque neste retangular sente-se fervorosamente a saudade dos ausentes.

Há uma pressa em chegar ao cemitério neste tempo, mas não há pressa de sair. Os velhos levantam-se cedo para olharem o céu pelo postigo, com olhos piscos da velhice. A natureza é calma e silenciosa. Tudo verte na solidão inquieta do tempo que passa na medida do tempo de cada um, destruído pela morte, fica a ternura que nos transmitiram os moradores eternos do cemitério.

No cemitério, há memórias associadas a rostos, a episódios fugazes que se instituíram nas nossas vidas como imperecíveis monumentos da alma. Neste espaço sagrado emergem e persistem perfumes de pessoas que partiram, algumas eternamente belas, sensuais, outras, apenas enigmáticas.

Todos os sítios do cemitério possuem um odor, um perfume cativante, um chão sagrado que nos inquieta, nos prende e interroga sobre a vida breve que cada um de nós passa cá na terra. No cemitério, a solidão e o repouso de espírito são a evocação da lembrança dos nossos mortos que partiram. Essa lembrança funciona como um círculo onde o princípio e o fim se encontram e entrelaçam. Aqui, sentem-se as carícias leitosas do luar. Sente-se a tragédia de uma jovem mãe casada que adormeceu no sono letal, ao saber da morte do seu filho por afogamento.

 Mais além, uma jovem chora a morte do noivo, há pouco residente no cemitério. Queria ainda ver o corpo, enlaçá-lo pela última vez, sentir a respiração envolvente como um halo perfumado de luar.

Aqui, no cemitério, os olhares são como luz de luar que incendeiam a nossa presença na terra e fundem o conjunto das pessoas numa só alma.

Neste doloroso tempo de pandemia, só vivendo na força do acreditar será possível viver, porque a vida é um exercício permanente de esperança.

Esta é uma quadra especial na vida dos cristãos pela celebração de todos os fiéis defuntos. O desejo de viver e renovar a vida faz parte de qualquer ser humano. Para uns, a morte apresenta-se como o fim dessa utopia. Para outros ela não é o fim do caminho, não é a última palavra porque acreditam que Deus quer os seus filhos para sempre irmanados em Cristo Crucificado e Salvador.

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