Sábado, 2 de Julho de 2022
Eduardo Varandas
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Ecos de uma visita honrosa e sentimental

Há dias desloquei-me a Mafra para assistir ao lançamento do livro “300 Anos – Presença Militar em Mafra”, integrado nas comemorações do quarto aniversário da Escola das Armas (EA). Unidade militar, ali sediada, herdeira do património histórico da antiga Escola Prática de Infantaria (EPI). 

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Esta visita revestiu-se de duplo significado. Por um lado tratou-se de corresponder ao amável convite dirigido pelo Comandante da EA, à instituição a que pertenço, para estar presente nesse evento, e, por outro, não menos importante, por ela representar sobre o ponto de vista afetivo, o regresso a um lugar por onde passei antes de ser mobilizado para o Ultramar.

Faz agora 46 anos que dali parti para Angola e antecedendo a cerimónia propriamente dita, fiz questão de visitar as antigas instalações que me eram familiares. Constatei, no decorrer da visita, que algumas delas tinham já sido desmanteladas como, por exemplo, as Oficinas Gerais, localizadas junto ao muro da Parada Norte. Outras, porém, continuam iguais como sejam a toponímia dos corredores, a cozinha, o refeitório dos Frades, o Jardim do Bucho e a Porta de Armas. Devo referir que participei na transferência de parte das Oficinas, para o novo local, ação que muito contribuiu para o louvor que me foi atribuído, pelo então Comandante, Coronel Hilário Marques da Gama, sob proposta do Comandante do Pelotão de Serviços Gerais, e que à época provocou comentários sarcásticos, por parte de alguns dos meus camaradas, dado que era raríssimo alguém da classe de sargentos milicianos ser objeto de tal distinção, numa Unidade militar vocacionada, essencialmente, para a formação de oficiais. Durante esse pequeno périplo, tive sempre a presença simpática de um soldado que, no diálogo estabelecido, me informou serem muitos os antigos militares que ali se deslocam em romagem de saudade e que não conseguem conter as lágrimas de emoção ao regressarem a um lugar que os marcou tão profundamente.

Como curiosidade, devo salientar a existência, no átrio contíguo à Porta de Armas, de uma placa evocativa da participação da EPI no 25 de Abril. A mensagem ali inserida é bastante elucidativa, ao referir que os militares da EPI que participaram na restauração da democracia e da liberdade “sempre se mantiveram fiéis à ideia tida e à palavra dada”. Em conversa com um dos protagonistas desse acontecimento, foi-me dito que o significado dessas palavras querem, simplesmente, dizer que sempre foi sua convicção regressar aos quartéis, depois de derrubado o regime. E assim aconteceu.

Como sabemos, infelizmente, uma grande parte dos militares, que não os da EPI, não só permaneceram na ribalta política como, alguns deles, conluiados com certas forças políticas, criaram até um Conselho da Revolução, à boa maneira terceiro – mundista, sendo extinto, apenas em setembro 1980, por força da primeira revisão constitucional.

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