2 – Percebe-se a finalidade do tema. A sociedade vive hoje num ambiente dominado por um vago sentimento religioso que procura conciliar o apelo mais profundo do coração com a independência e o individualismo totais, excluindo a pertença a uma comunidade. Essa atitude mental faz germinar uma multiplicidade de expressões religiosas esporádicas e alimentadas pela fantasia individual.
Ainda recentemente se verificaram alguns factos que exprimem bem esse clima e desorientação do sentimento religioso: em volta do hospital onde se encontrava internado em situação gravíssima um jovem cantor, vítima de um desastre de carro e onde acabaria por morrer, vários jovens se amontoaram a fazer uma cadeia de mãos dadas «para fazer uma corrente positiva» que pudesse influenciar o doente na sua recuperação e, depois, no funeral desse jovem não sabiam rezar; outro jovem, que até se confessa «não muito religioso», quer ir a Fátima em condições de algum sacrifício porque «isso lhe traz alguma consolação transcendente»; recentemente, a Europa e o mundo assistiram estarrecidos a actos de terrorismo violentíssimo praticado por um homem novo da Noruega que se dizia cristão e empenhado em salvar a Europa das «duas doenças da cultura marxista e da aceitação da emigração muçulmana».
3 Nos casos referidos aparece estampada a múltipla desorientação religiosa do nosso tempo: o sentimento religioso típico do paganismo que toma a religião como a relação com forças sem rosto que obedeceriam a sinais feitos pelos homens à maneira de tótemes e de talismãs dos povos primitivos; a confusão de uma vaga sede do divino com a piedade cristã; a elucubração fantasista de mensagem «cristã» que daria cobertura social ao sonho xenófobo de uma pessoa entregue a si própria.
Podemos acrescentar a esses casos a experiência de visitas a catedrais por pessoas que não vêem aí o lugar da comunidade cristã e menos ainda a casa de Deus, mas unicamente um espaço artístico, silencioso, cheio de uma espécie de neblina religiosa sobre um rio cujo leito nunca viram nem palparam; a perda da noção de pecado, que é uma realidade eminentemente pessoal, substituída pela mera carência psicológica e social.
Em todos estes casos falta a informação histórica, a pertença a uma comunidade cristã que eduque permanentemente para a ortodoxia e o comportamento religioso. Estes três elementos são, aliás, as etapas históricas da Revelação cristã: do sentimento religioso primitivo à revelação bíblica moisaica, da revelação bíblia moisaica à revelação de Jesus Cristo, e a revelação cristã vivida em Igreja. Fora deste percurso histórico, voltaremos a cair na fantasia pagã.
O sentimento religioso, como qualquer outro sentimento, precisa de ser educado para se tornar adulto. A pessoa de Cristo e a comunidade cristã são essenciais para a vivência autêntica da fé cristã. É de um alcance antropológico profundíssimo a afirmação de Jesus: «quem vos ouve a Mim ouve, e quem vos despreza a Mim despreza». Isto não significa somente a obrigação moral de obedecer aos mandamentos e normas traçadas pela legítima autoridade da Igreja, mas significa que, sem a Igreja visível, a mensagem de Jesus Cristo corre o perigo de se diluir, de se evaporar, para dar lugar a todo o tipo de fantasias morais e teológicas. Basta ver o que aconteceu aos grupos de cristãos que historicamente se separaram da Igreja: desagregaram-se e afastaram-se de tal modo da seiva original que alguns desses «cristãos» chegam a apresentar-se como «agnósticos».
4 Uma outra exigência da mensagem cristã é a fidelidade ao mundo real, aos problemas económicos, sociais, escolar e de saúde das pessoas e da sociedade. O cristianismo é uma religião de «Deus feito homem», interessado pelo homem, uma espiritualidade do equilíbrio do Além e do Aquém, e não de um Deus abstracto e alheio à realidade histórica. Acerca de Deus nós só sabemos aquilo que Ele nos foi revelando pelas suas relações connosco, nomeadamente pela Criação e pela pessoa de seu Filho feito homem. O Deus dos cristãos é um Deus histórico, alguém que viveu connosco numa época e num lugar concretos. Não é um Deus dos filósofos e dos mitos.
Na sequência desta verdade, os jovens não aceitam hoje uma atitude cristã de salvação meramente preocupada com o céu. Exigem necessariamente uma dimensão temporal da fé, inclusive uma dimensão política. Os melhores jovens cristãos sentem-se cidadãos comprometidos com a sociedade, desejosos de contribui para ela com actos reais. É ver o entusiasmo com que se dedicam a campanhas de bem-fazer, sejam elas da Cáritas, dos Vicentinos, da Cruz Vermelha, dos Bombeiros. Torna-se, pois, necessário incluir na formação catequética a doutrina social da Igreja.
5 É a tudo isto que se reporta o tema da próxima Jornada Mundial da Juventude: «alicerçados e edificados em Cristo»: a proposta aos jovens de uma espiritualidade apoiada na pessoa de Jesus Cristo – uma pessoa histórica e nosso contemporâneo porque ressuscitado, e com quem se vive uma relação pessoal e comunitária. Fazer esta educação é uma tarefa gigantesca, tarefa de anos, mas é a única maneira de preparar os jovens no actual deserto de estruturas de pensamento e de acção.
Cristo é, de facto, a pedra histórica da fé e a fonte da adesão voluntária, a chama do encanto afectivo e do entusiasmo dinamizador, a referência que reúne o amor a Deus e o amor ao próximo, o sonho místico e o caminho humano, o contacto com Deus e o interesse pelo homem, os afectos religiosos e os direitos da razão. Assim haja adultos capazes deste trabalho e os jovens entendam este esforço.



