A partir daí até à confirmação da doença percorreu alguns meses de insegurança e medo com o diagnóstico. Depois de análises e vários exames, a médica do hospital de Vila Real confirmou o que Zita já temia, tinha uma “microcalcificação maligna na mama” e teria de ser operada para a retirar. “Um turbilhão de dúvidas invadiu-me e comecei logo a pensar o que seria dos meus dois filhos. Fiquei com medo e muita angústia”, conta Zita, que olhou para o lado, onde estava o marido, Rui, que estava mais “branco do que farinha” e não disse nada.
Parece que o mundo estava a desmoronar e quando saiu do consultório, Zita vinha com as ideias turbas e as emoções totalmente descontroladas. Já no carro, chorou desesperadamente, sem saber o que lhe iria acontecer… O marido continuava calado.
Depois de alguns dias complicados, sem saber muito bem o que fazer, decidiu não dizer nada aos pais, amigos e familiares mais próximos. Com o aproximar do dia da operação, não poderia continuar a esconder e teve de contar. “Não foi fácil, sobretudo aos meus pais. No entanto, tive uma reação muito racional e fui forte, apesar de só querer miminhos e colinho no momento em que lhes contei”.
O filho, Afonso, de 5 anos, percebeu que alguma coisa não estava a correr bem e Zita decidiu contar-lhe o que se estava a passar. “Expliquei-lhe que tinha uma ferida na mama e tinha de ser operada para ficar bem. Isto aconteceu no final de setembro e ele perguntou-me se voltava antes da Páscoa. Eu prometi que voltaria de certeza. Ele chorou, mas acabou por compreender. Acho que é importante contar a verdade aos nossos filhos e não esconder, sobretudo quando já têm idade para perceber. À Clarinha, de apenas 2 anos, não valia a pena contar, até porque ela não iria entender”.
A operação
Já instalada no hospital conheceu outros casos semelhantes ao dela e fez logo novas amizades. Já preparadas, as novas amigas foram bem cedo para a Ordem de São Francisco fazer a marcação da biopsia do gânglio sentinela (nova forma de detetar se o cancro se disseminou para os gânglios linfáticos). De regresso a Vila Real, por volta das 16h00, desceu para o bloco operatório e correu tudo bem. Três dias depois, teve alta hospitalar, altura em que se realizava o cortejo das aldeias pelas ruas de Vila Real. Como sempre gostou de participar nestas atividades, pediu à prima Carina para lhe levar roupa e foi ver o cortejo. “A minha mãe quando me viu veio dar-me um abraço e nem acreditava que eu já estava ali aparentemente bem. Não tinha dores e achei que deveria ir. Gostei muito e são estas pequenas coisas que nos ajudam a ultrapassar as situações mais complicadas”, afirma Zita, sempre com um sorriso no rosto.
Seguiram-se alguns dias de recuperação, em que o carinho dos filhos, do marido, familiares e amigos foi fundamental.
As mudanças na vida quotidiana
Durante um mês, no pós-operatório, Zita não fez “quase nada”. Depois, já com mais forças tentou levar uma vida normal, mas teve de ter alguns cuidados e não fazer esforços. Passado este tempo, Zita continuou a dar explicações e aulas.
Zita recorda o facto de algumas pessoas “amigas” se terem afastado, uma situação que a deixou um pouco triste, mas uma conversa com a médica, que a seguiu no hospital, percebeu que esta atitude era apenas por “medo” de também poderem vir a ter a doença. “Quando é uma pessoa mais velha, as pessoas entendem melhor. Quando é mais nova, mostram alguma renitência, o que é normal, explicou-me a médica numa das consultas”, disse Zita, adiantando que mesmo assim não compreendeu este tipo de atitude.
Ficar sem peito
Para uma mulher, perder o peito é uma situação delicada e dolorosa. Nos primeiros dias, Zita preferiu não ver o que lhe tinham tirado. Primeiro, colocou-se a questão de tirar apenas uma parte do seio, mas, por precaução, Zita decidiu tirá-lo todo. Já conformada com o seu problema, só mais tarde teve coragem de olhar no espelho a cicatriz. “É sempre um choque, mas acho que me custou mais ficar sem cabelo, porque o impacto social era maior. Com a prótese, as pessoas não veem o meu peito, já o cabelo é diferente e não queria que as pessoas tivessem pena de mim”.
O início da quimioterapia
Zita teria de ser submetida a seis sessões de quimioterapia. A primeira sessão correu bem até ao terceiro dia, altura em que teve uma erupção cutânea enorme. Achou normal e não disse nada. Na segunda sessão, ficou com muitos calores e não se sentia bem. Os enfermeiros aperceberam-se e teve de parar imediatamente o tratamento. Teve de marcar nova consulta para serem definidos novos fármacos a que não fosse alérgica. “Adaptei-me melhor aos novos medicamentos, mas após quatro sessões senti-me enjoada, com cólicas e não dormia. Passados três dias, voltava à normalidade”, revela Zita, que está agora na fase final da quimioterapia.
A queda do cabelo
Para qualquer mulher, o cabelo é talvez a parte do corpo que preservam e gostam de mostrar, uma vez que um cabelo bonito faz toda a diferença. Zita, que tinha um cabelo enorme e forte, sabia que ele iria ficar fraco e acabaria por cair. No entanto, não esperava que o processo fosse tão rápido. Logo após a primeira sessão de quimioterapia, passava a escova devagar para tentar que ele caísse pouco, mas era cada vez mais difícil travar o que estava à sua frente e não queria acreditar. Foi tentando retardar o corte, mas as “peladas” já eram bem visíveis e em dois dias ficou sem cabelo. “Pensei que em todo este processo, o facto de o cabelo cair era uma futilidade, mas na verdade foi muito doloroso. Na primeira semana após o tratamento, notei que o cabelo me estava a cair mais do que é normal. Coloquei gel e fiz um rabo-de-cavalo para não me cair tanto. Fiz isto mais três dias e num sábado, andava nas limpezas, coloquei um gorro e lá andei tranquila. À noite, quando tiro o gorro para tomar banho, o meu cabelo estava um autêntico novelo duro. Fui à casa de banho e comecei a chorar, porque estava horrível, não conseguia fazer nada daquilo que estava na minha cabeça. Pedi ao Rui para me ajudar a tirar o ‘novelo’ da cabeça. Voltei a colocar o gorro e só na terça-feira fui ao cabeleireiro fazer o corte zero. Decidi virar-me de costas para o espelho, depois escolhi uma peruca parecida com a cor do meu cabelo e aqui está até hoje na minha cabeça”.
Este foi um dos momentos mais dramáticos por que passou e ainda hoje não teve coragem de se ver ao espelho sem cabelo.
Já o facto de não ter um peito, também não foi fácil de ultrapassar, mas a reconstrução irá minimizar esta situação. “O Rui foi sempre muito querido e compreensivo. Acredito que tudo voltará à normalidade”, refere Zita, uma mulher de fé, mas que a certa altura a “perdeu”, no entanto voltou a encontrá-la, o que a tem ajudado a superar os momentos mais difíceis.
O livro
Apesar de não gostar de escrever, a professora de matemática sempre foi mais voltada para os números. A doença mostrou-lhe uma faceta que ela própria desconhecia, a escrita, um refúgio para ultrapassar os dias mais complicados. A ideia era oferecer um exemplar aos amigos e familiares no dia do seu próprio aniversário. Como sempre teve dentro de si uma veia solidária, decidiu doar o valor das vendas ao Centro Oncológico de Vila Real. “Fui falar com o Dr. Miguel, que me aconselhou a doar material que seja necessário na unidade de saúde. Ele irá fazer uma lista com as necessidades e eu irei comprar e doar”.
No dia do seu aniversário, a 18 de fevereiro, Zita juntou dezenas de pessoas para a grande surpresa, em que apenas três pessoas sabiam o que iria acontecer. “Reuni muitas pessoas no Museu da Vila Velha. Pensavam que iria apresentar a minha candidatura à junta de freguesia, principalmente quando chegou o presidente da câmara e o professor José Maria. Qual não foi o espanto dos meus amigos quando viram o livro. Foi um momento único, que irei guardar para sempre no meu coração”.
Agora a vida continua. Está na fase final do tratamento e as notícias têm sido muito animadoras, o cancro desapareceu…
Zita lembra ainda a avó, hoje com 94 anos, que teve cancro da mama há 50 anos e continua cheia de vitalidade, com uma pele invejável. “É um exemplo para mim. Teve a doença há muito anos e recuperou bem.
Esta é a história da Zita Pires, de 40 anos, natural de Mouçós, concelho de Vila Real, que soube que tinha cancro da mamã no final de agosto de 2016. Mas poderia ser a história de qualquer uma de nós… por isso se sentir alguma coisa de anormal no seu corpo não hesite em contactar o seu médico de família, porque um diagnóstico precoce pode fazer toda a diferença…
O livro está à venda na Clínica das Boxes e no Facebook.
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