Vila Real“Esta será uma das vindimas mais amargas de sempre”

“Esta será uma das vindimas mais amargas de sempre”

Algumas uvas já começam a ser apanhadas no Douro e dentro de dias começará a grande azáfama da época de vindimas, uma altura que devia ser de “festa” na região, mas que este ano, segundo a Avidouro, realiza-se num cenário próximo da calamidade social com problemas, que ‘não são novos’, a agravarem-se sem que haja a intervenção do Governo.

“Os dados oficiais indicam que haverá um aumento na produção, mas, segundo os próprios viticultores, este ano será de uma quebra acentuada devido aos vários problemas que afetam gravemente o Douro”, considerou Berta Santos, presidente da Direção da Associação de Vitivinicultores do Douro (Avidouro).

Numa altura em que as vindimas estão prestes a começar em força, o Nosso Jornal fez um ponto da situação da região junto daquela que é uma das mais representativas e interventivas organizações do movimento associativo na região.

Além de problemas mais antigos que se têm vindo a agravar ao longo dos últimos anos, nomeadamente a redução do benefício (que apesar de ter sido aumentado este ano continua a ser insuficiente), a instabilidade dos preços ao consumo, a situação da Casa do Douro e a crise financeira que assola a maioria das adegas cooperativas, Berta Santos lembra que para muitos viticultores o cenário é ainda mais negro tendo em conta a problemática dos prejuízos causados pelas intempéries em mais de mil hectares de vinha, e da seca”.

“O Governo e o ministério têm que intervir no Douro. Ano após ano, dia após dia, a situação complica-se e não será possível aos agricultores aguentarem muito mais tempo”, garante a mesma responsável.

Apesar de reconhecer que o Douro é, sobretudo, uma monocultura, onde sobressai claramente a vinha e o vinho, Berta Santos frisou que os problemas afetam toda a agricultura, todas as produções, e estão a levar a região ao abismo. “Os agricultores que não conseguem rendimento das suas produções estavam a contar com os ganhos no trabalho da vindima, mas este ano vai haver uma quebra em termos de contratação de mão-de-obra”, adverte, lembrando ainda que são mais de 35 mil famílias que vivem dos seus terrenos.

Acompanhando de perto as várias lutas dos viticultores, a Avidouro promete não baixar os braços por exemplo no que diz respeito ao problema dos estragos causados pelas fortes quedas de granizo, estando agendada para a próxima terça-feira mais uma reunião da comissão criada por representantes dos viticultores das áreas mais afetadas (Celeirós do Douro, Provesende, Ermida, Ervedosa do Douro, Vila Real e Nogueira) para delinear novas ações e voltar a chamar a atenção do Governo.

“O levantamento dos prejuízos está feito e foi entregue. Espera-se e reclama-se que o ministério da Agricultura e o Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP) saibam avaliar a situação desesperada dos viticultores e suas famílias, e aceitem consagrar, entre outras, as medidas mais adequadas para resolver a situação do Benefício, sem mais penalizações para os produtores”, defendeu a Avidouro num documento entregue ao secretário de Estado da Agricultura, aquando da sua visita a Vila Real.

 

Apoios a produtores afetados pelas intempéries só ao nível fitossanitário

Sobre os prejuízos causados pela queda de granizo, em maio e julho, às centenas de agricultores da região, o secretário de Estado da Agricultura, José Diogo Albuquerque, adiantou em Vila Real que os apoios serão dados apenas ao nível das medidas fitossanitárias.

“Não pode haver intervenções do Governo quando há um sistema de seguros apoiado em 50 por cento, ou mesmo em 80 por cento quando há prejuízos maiores, do preço dos prémios”, defendeu o governante em resposta aos agricultores da região, que reclamam a atribuição de “um apoio financeiro, a fundo perdido, que “permita que 400 vitivinicultores continuem a trabalhar e a produzir”.

José Diogo de Albuquerque garantiu que será dinamizado, no âmbito do próximo Quadro Comunitário de Apoio, “um novo sistema de seguros de colheita através da Organização Comum do Mercado da Vinha”, que, ao ser considerado como “obrigatório” ou ao ser beneficiado através de apoios aos segurados, vai permitir a criação de um “sistema universal”, logo “com prémios mais baratos”.

“Não podemos dar apoios aos sistemas de seguro e ao mesmo tempo apoiar quem não está dentro dele”, reforçou o secretário de Estado, sublinhando novamente que tem que haver uma concertação na criação de um “sistema que funcione e que tenha vida no futuro”.

Até lá, os apoios para os agricultores afetados por intempéries ficam- -se pelas “medidas fitossanitárias, que são importantes”.

Rui Santos, deputado na Assembleia da República eleito pelo círculo eleitoral vila-realense do Partido Socialista, explicou no entanto que, enquanto a maior parte das regiões vitivinícolas do país tem “organizações que divulgam a possibilidade dos agricultores fazerem os seus seguros em conjunto” e “anunciam que 85 por cento do prémio é pago por fundos comunitários”, os 36 mil vitivinicultores do Douro são obrigados a fazer as suas apólices individualmente, o que se torna insuportável financeiramente.

“No Douro há duas instituições que poderiam fazer isso, o IVDP, que não o pode fazer por questões estatuárias, e a Casa do Douro, que com as dificuldades económico-financeiras que são conhecidas, não tem tido capacidade para montar um sistema desses”, explicou.

Por isso, o mesmo responsável político defende que, tal como já aconteceu no passado, sejam encontradas “soluções excecionais” para “situações que são excecionais”.

-PUB-


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