Quarta-feira, 4 de Agosto de 2021
Victor Pereira
Pároco. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Estou cansado, logo existo

Byung-Chul Han é um filósofo e professor de origem sul-coreana que se tem dedicado a dissecar os valores e o pensamento das sociedades contemporâneas.

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Vive na Alemanha, é docente em Berlim. É muito crítico das atuais sociedades que nasceram depois da queda do muro de Berlim, que ele apelida de hiperconsumistas e neoliberais, que nos arrastaram para aquilo que denomina como a sociedade do cansaço.

O ser humano atual, fortemente estimulado pela psicologia positiva (Sim, você pode; pensa positivo e alcançarás), pensa que pode conquistar e atingir tudo que pode pelo seu esforço, perseguindo o máximo de si, submetendo-se ao alto rendimento e exploração de si mesmo, e assim julgando que atinge a sua plena realização. Só que este exagero criou um problema: «vive-se com a angústia de não se estar a fazer tudo o que poderia ser feito». E se não se atinge o alto desempenho, o sucesso e se é um vencedor, entra-se na culpabilização e autoflagelação. Rapidamente chegam o Burnout, a depressão e a ansiedade. No fundo, dentro de nós mesmos criámos um campo de trabalho forçado, escravos da superprodução e da superperformance. Criámos a sociedade do cansaço, onde dizer que se está cansado e que se anda cansado se tornou normal. Depois, é preciso criar e servir evasões, fugas e escapes, que não são verdadeiro descanso, mas uma pausa para se voltar à prisão da nossa autoexploração que nos mergulha no cansaço.

Não será demais lembrar que produzimos para viver e não vivemos para produzir. Na vida, não temos de nos censurar se não alcançarmos tudo o que nos propomos a fazer, vivendo obcecados pela produtividade e pelo alto rendimento a todo o custo, em grave prejuízo do nosso equilíbrio como pessoas humanas: «o excesso do aumento no desempenho provoca o infarto da alma».

Dois bons frutos desta patológica mentalidade contemporânea são o hiperconsumismo, o consumo exagerado de produtos e de entretenimento, e o narcisismo, viver fechado sobre si mesmo e tudo fazer para bem se projetar nos outros, sem querer, na verdade, ver os outros e criar empatia com eles: «estamos na Rede, mas não escutamos o outro, só fazemos barulho».

Solução para esta vivência errática? «Retornar ao animal original, que não consome, nem se comunica de forma desenfreada; É preciso revolucionar o uso do tempo. A aceleração atual diminui a capacidade de permanecer: precisamos de um tempo próprio que o sistema produtivo não nos deixa ter». Aprender a ler, pensar, falar na era pós-moderna.

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