IgrejaFamília, educação e transmissão da Fé

Família, educação e transmissão da Fé

1 - Esta semana é a chamada «Semana da Educação Cristã», neste ano dedicada à «Família, educadora e transmissora da fé». Sobre esse tema a Comissão Episcopal da Família publicou uma Nota no dia 15 de Setembro, que inspirou este texto. Aí se diz que a Família é a primeira comunidade educadora e a transmissora da fé, mas não é a única nem nunca pôde realizar sozinha a sua missão.

2 – Convém fixar as três afirmações. É a primeira comunidade porque é ela que inicia o processo educativo e se mantém a mais influente, numa relação afectiva ímpar com os filhos.

Não é a única porque ao lado da família, actuam a escola, a paróquia e a sociedade através de múltiplos meios, incluindo os «media» (imprensa, televisão, a publicidade, passatempos, Internet);

Nunca pôde realizar sozinha a missão educativa porque há aspectos da educação que ultrapassam as famílias, como sejam a instrução, a distracção, e a dimensão comunitária e celebrativa da fé.

Na actualidade, em oposição à primazia familiar, os Estados arrogam-se às vezes o direito de serem os educadores totais, como aconteceu com o nazismo e o comunismo e como tendem a ser todas as ditaduras políticas. E os pais, por causa da dispersão do trabalho fora de casa, tendem a entregar inconscientemente ao Estado e à televisão a educação dos filhos, com longos períodos de permanência na escola (que o actual Ministro parece querer reduzir, e bem), a ocupação dos tempos livres, a educação sexual confundida com informação reprodutiva e anticonceptiva.

Hoje, uma tarefa essencial da família é ajudar os filhos a fazerem a síntese e a hierarquização do tempo e dos múltiplos valores e sentimentos dispersos na sociedade, o discernimento dos comportamentos e situações, a percepção da dimensão das práticas religiosas essenciais, tais como o valor do Domingo e da missa dominical, o valor e prática dos sacramentos, algumas orações pessoais e colectivas. Nesta área, há filhos que vêm a ser os agentes da educação religiosa dos pais, quer arrastando-os à igreja por ocasião do baptismo e da comunhão. Há mesmo paróquias em que, durante a catequese das crianças, é ministrada aos pais noutro espaço uma informação apropriada sobre a vida cristã.

Na aprendizagem da oração, a Nota da Comissão acentua ainda o papel que os avós poderão desempenhar, proporcionando aos netos momento de oração e reflexões sobre o sentido da vida.

3 – Acerca da educação e transmissão da fé católica convém lembrar a exigência da íntima comunhão com a comunidade cristã oficial (paróquia e diocese), pois os pais são educadores da fé enquanto fiéis e filhos da Igreja e na medida em que o são.

É absolutamente negativo e contraditório tentar uma educação católica fora dessa comunhão. A quebra dessa comunhão e da fidelidade, sobretudo acerca dos conteúdos da fé e das práticas fundamentais, constitui hoje o maior obstáculo à educação religiosa. Neste Verão, conheci o caso de uma paróquia em que a festa da Comunhão se realizou no Domingo, dia 14 de Agosto, tendo o pároco o cuidado de avisar que, no dia seguinte, dia da Assunção, era obrigatória a participação na Missa. Apareceu somente uma criança e os seus pais! Os outros inventaram, consciente ou inconscientemente, uma Comunhão sacramental sem comunhão eclesial. É a chamada privatização da fé, reduzindo-a a actos dependentes do gosto de cada um.

Talvez o pároco em questão devesse também interrogar-se sobre as exigências que pôs na preparação das crianças e dos pais, incluindo a não admissão de alguns à Comunhão, pois esta não é um direito natural.

4 – Da parte da sociedade civil, a ameaça maior vem do laicismo, em que tudo – o nascimento, o noivado, o casamento, o calendário da semana e do mês e do ano, e a própria morte e os sentimentos mais íntimos – é discutido e vivido como mera actividade natural. Os programas televisivos para crianças deviam ser mais acompanhados pelos pais ou algum irmão mais velho, e algumas telenovelas não são tão inocentes como isso, mormente na desorientação dos afectos.

Neste contexto, às famílias cristãs pede-se fortaleza e lucidez. Algumas delas vêm a colocar grande interesse na vida de fé, quer através de alguns actos de piedade em casa quer na escolha das escolas para os filhos quer no acompanhamento da catequese; outras desanimaram. Julgando ser suficiente deixar os filhos à vontade. Esta semana da educação deseja animar as primeiras e estimular as segundas.

5 – Durante séculos exigia-se como normal o casamento homogéneo e rectilíneo, casando homens católicos com mulheres católicas, e até dentro do mesmo contexto geográfico. Dava-se prioridade ao futuro dos filhos, incluindo a transmissão da fé, acima das suas aventuras amorosas e liberdades. Hoje, acentua-se a liberdade dos noivos na construção do casamento favorecida pela mobilidade humana e a múltipla emigração. Cresceram assim os casamentos de noivos de religião mista e dos mais variados espaços geográficos, raças e estratos sociais. Com isso, salvou-se a liberdade e a espontaneidade do amor, mas aumentaram as dificuldades da vida religiosa do casal e a educação religiosa dos filhos. Será, pois, conveniente lembrar que o desejável continua a ser a realização dos casamentos dentro da mesma orientação religiosa.

O título dado a esta semana faz a apologia dos direitos da família perante o Estado, afirma a prioridade da família dentro da sociedade civil, e faz um apelo à conversão dos noivos e dos pais.

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