Ficamos órfãos de alguém que nos animava na derrota, na dor e nos espinhos dos vários malogros.
Todos envelhecemos em cada dia, sabendo que o fim pleno está mais próximo e mais triste porque ser velho neste país é um fardo social e as sombras dos caminhos enredam-se facilmente na escuridão do isolamento e da solidão…
Fernando Matos saiu do nosso pequeno mundo, afastou-se fisicamente mas só fisicamente. Da morte natural nunca ninguém desapareceu para sempre, porque não foi para morrer que nascemos e porque de alguém fica sempre alguma obra feita. De Fernando Matos há um legado, um património humano que por cá vai ficar para que todos os olhos possam admirar o que ele fez de grandioso pela Freguesia de Mateus.
Mesmo com os seus problemas de saúde, ele manifestava a incrível energia de querer viver mais algum tempo para que através do seu sorriso, do seu trabalho e fé inabalável, a obra do Criador continuasse o seu caminho de expansão e glória.
Já as coisas, por cá, estão a ficar um pouco vazias com a falta do Fernando que soube percorrer tantos lugares na procura de enaltecer a sua terra… conciliador, colaborador, entusiasta indefetível nos vários empreendimentos, sociais, culturais e religiosos que têm dado voz a uma freguesia que ele tanto amava desinteressada e apaixonadamente.
Neste momento não há palavras para descrever a figura incontornável do Fernando enquanto viveu por cá uma vida bem preenchida, mas breve, porque no seu horizonte havia ainda a vontade indisfarçável de continuar a servir os outros. Vivemos agora imagens simpáticas de um homem íntegro, pleno de vitalidade e sincero naquilo que dizia e fazia.
A nossa vida quotidiana começa a perder um certo sentido e a nossa identidade também ela se dilui e esfuma com a partida definitiva do Fernando Matos, pois a sua vida atravessou a história da nossa história… contá-la leva-nos a vislumbrar um rosto feliz e afável, um sorriso e um olhar que espreitavam o movimento das coisas e sobretudo a preocupação inquietante de ver no outro um sinal negativo ou a manifestação de um qualquer problema… Fernando Matos era altruísta porque sofria com o sofrimento dos outros, sendo ao mesmo tempo solidário para com todos agarrando-se às coisas e à vida dando aos outros a força que lhes faltava…
Vai fazer falta o Fernando na Freguesia de Mateus porque ele era um homem enorme de ternura, de coração, de partilha e gregarismo que a todos unia nas adversidades…ele era aquela voz ciciada ou quente que nos dizia para resistir e combater soberanamente naquilo que eram as suas convicções visando o bem coletivo.
Com o seu exemplo de vida, está entregue às mãos celestes. Na sua aura luminosa de homem bom e nas suas dores resignadas à vontade de Deus, o Fernando Matos está a ser julgado e admirado na sua dimensão humana que foi grande, infinitamente grande, enriquecida e caldeada por todos os habitantes da Freguesia de Mateus.
As Banda de Mateus, o Coro da Paróquia, os Bombos de Abambres, vão recordá-lo como alguém que se dedicou com paixão e espírito solidário permanente. O meu abraço afetuoso a um amigo de coração que já vem do tempo em que eu dirigia a Banda de Mateus em que na execução dos pratos ou do bombo ele manifestava alegremente a sua dedicação por uma arte que o norteou na sua vida.
Há dias falei com ele e havia nos seus olhos a sombra triste de uma imensa melancolia porque dizia-me que já tinha saudades da vida, sobretudo da família que tanto amava. Como eu o compreendi, porque saudade é ter lastro, é ter história, é ter passado. Olhava-me e falava-me de um passado distante mas magnífico, lembrava-me episódios reavivados na substância majestosa das memórias…Falava-me das festas, dos patrões, das brincadeiras nos intervalos dos arraiais, falava-me de um mundo que ele queria que nunca acabasse…
Vai fazer falta o Fernando.



