Segunda-feira, 4 de Julho de 2022
Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Filarmónicas

Domingo calmo e céu azul, típico de um dia de verão. Decidido na viagem saio cedo de casa.

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Os sinos de Mateus batem as oito horas e os seus ecos arrastam uma corrente de força que despertam os habitantes para um dia santificado de domingo. Descontraído, ouço o turbilhão de pássaros que me saúdam com os seus rasgados trinados convidando-me a partilhar com eles aquela linda manhã de um domingo de festa. Interiorizo aquela sinfonia viva da natureza, parto, sereno e confiante para um lugar onde vão estar duas bandas filarmónicas com um historial rico e invejável: Lalim e Pinheiro da Bemposta. Vou como convidado por um grande amigo professor e maestro: António Ribeiro. Anseio para ouvir a banda que ele diligentemente dirige. De facto, a Banda de Pinheiro de Bemposta passou a ser uma referência, uma das mais proeminentes coletividades filarmónicas, não só na sua região como numa vasta área minhota e transmontana. O meu amigo sempre considerou a música como “a mãe de todas as artes” e a sua aprendizagem “uma escolha inteligente dos jovens”. “Ouvi-la, é um deleite para a alma”, ter-me-á dito um dia.

Ainda hoje lembro com emoção o concerto que nesse dia de agosto as duas bandas ofereceram a um tão vasto público (observei, feliz, homens de chapéu e cigarro humedecido ao canto da boca apagado para assim durar mais tempo…) O programa foi aliciante e o povo entusiasticamente deambulava nos seus movimentos para um lado e para outro ao sabor dos sons que entravam dentro de cada um como que se todos estivessem a tocar a mesma música apelativa, sedutora…inebriante…

Durante 4 horas ouvi as bandas com paixão, sentindo que todo aquele povo as escutava com a mesma emoção, transportado para um outro mundo sentindo-se embalado ali ao pé naquela visão de paraíso ficando a pairar sobre ele até às 8horas da tarde. Hipnotizantes, os músicos conquistaram facilmente o povo que se “obrigava” a um silêncio absoluto que ninguém ousava quebrar…
Misturado naquele turbilhão de gente, prendo-me igualmente na perscrutação de sons que irradiam de outros tantos instrumentos. Naturalmente a minha maior atenção vai para a banda que o meu amigo António dirige, não pelo facto da existência do elo de amizade que nos une há já alguns anos, mas pela indisfarçável curiosidade em acompanhar o seu trabalho artístico como maestro. A sua banda está imbuída de cumplicidades, quer na relação afetiva dos seus componentes, quer na execução primorosa com que cada um brilhantemente desempenha o seu papel. Resultado quase que perfeito: um som pleno de harmonia que transborda para além das notas musicais. Um som peculiar que cria fascínio e empolga multidões.

Para além de tudo isto, é visível o elevado número de elementos femininos que perfumam todo um conjunto de pessoas simpáticas e elegantes de trato. A esse rastro de elegância, a Banda de Pinheiro de Bemposta tem sabido construir uma arquitetura grandiosa num programa de efeitos fantasiosos, procurando satisfazer uma variedade de público nos seus vários gostos e exigências. As raízes culturais do povo não são descuradas no seu repertório e, muitas vezes, têm sido o mote inspirador de algumas peças que a banda prestimosamente exibe.

Por simpatia, os maestros das duas bandas convidaram-me a dirigi-las numa marcha forte de emoções arrastando naturalmente toda aquela fantástica moldura humana até à despedida final. Duas bandas de grande qualidade artística e de elegante trato de todos os seus elementos. Duas bandas, onde Lalim orgulhosamente patenteou um seu antigo maestro (Dr. Rui) querendo-o junto do seu coreto como senha de gratidão e que orgulhosamente reconhece e homenageia em todos os seus concertos. No regresso a casa dou continuidade ao concerto, trauteando algumas melodias que teimosamente persistem dentro de mim como aquelas melopeias que no nosso consciente habitam, exaltando o poder dos sonhos…

Por alguns dias esqueci a sinfonia dos pássaros…e recordei o tempo que em Mateus eu dirigi a banda da terra…estremeci nas minhas nuances respiratórias e revelei-me de novo em paisagens sonoras tendo com alvo frei Vicente, homem simples de Deus que desprezava as frívolas paixões que movem o comum dos mortais…
 

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