Terça-feira, 15 de Junho de 2021
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Gabriel Fonseca – Mateus o lembrará

Há pessoas que durante a vida souberam cultivar amizades pelo respeito que deram aos outros, independentemente do estrato social em causa, raça ou cor.

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O Gabriel enquanto andou por cá teve a fina sensibilidade de saber relacionar-se com as pessoas porque era fácil estar com ele, porque a sua brandura de temperamento e o seu sorriso imediato eram atributos que conquistavam tudo e todos…

Gabriel, homem lutador cuja pureza de alma grande lhe terá concedido o passaporte, pela mão sublime do Criador, para o lugar onde só os eleitos entrarão.

Figura incontornável de Mateus pelo seu amor à terra, à família e aos amigos…

A sua memória será perpetuada, pois o seu universo interior era muito rico de sentimentos e de amor desinteressado ao próximo.

O fim de vida é isto: implacável para com todos na sua hora de despedida.

Já há muito tempo eramos tão novos e caminhávamos desprendidos dos problemas como se a felicidade fosse plena e eterna. Tão novos e tão confiantes, nunca pensando no dia do Juízo Final pela chamada da Voz Suprema de Deus. Todos envelhecemos suportando fardos e infortúnios vários, no entanto, nem todos sabemos envelhecer. Saber envelhecer é saber agradecer as bênçãos e a clemência de Deus Pai em cada dia que acordamos e despertamos de novo para a vida na doce felicidade de contemplar o nascer do sol.

Mas os amigos que já partiram vão girando na nossa memória envolvidos nos odores das melhores e mais belas flores…

O Gabriel era uma dessas pessoas, cujas palavras e sorrisos francos serviam como a vitamina necessária para que o dia decorresse como uma bela música sujeita à deslizante e doce harmonia.

Cruzei-me muitas vezes com ele e era inevitável a pergunta: “ Professor só tive pena de não aprender música…” Estava-lhe no sangue o gosto pela arte, a exemplo da sua família, mas a vida difícil não lhe permitiu tão distinto e almejado privilégio.

Ficam-lhe os pergaminhos de uma dedicação à família que o vai saber recordar no coração com alegria e saudade por tudo aquilo que ele lhe soube dar sem nunca procurar receber nada em troca senão o mesmo carinho e amor incondicional. E isso aconteceu e ficará bem dentro dos familiares e dos incontáveis amigos.

Vão cair lágrimas, mas elas serão o sinal natural da falta que nos próximos tempos o Gabriel- conhecido carinhosamente por “Bié”- nos vai fazer a todos…Ah! O Carnaval vai ficar mais triste com a sua ausência…O Carnaval fazia mais sentido quando o Gabriel aparecia com a sua graça, a sua imaginação fértil, a seriedade que dava a uma festa tão popular e que ele incarnava como ninguém.

Já não há palavras na lembrança de quem andou por cá e deixou marcas fortes por tudo aquilo que fez de bom…Há imagens do Gabriel…sim lindas imagens de ternura e de sorrisos abertos que nas manhãs frias de nevoeiro aqueciam o movimento das coisas e davam claridade às pessoas que procuravam o encontro do Gabriel para retemperarem a alegria da vida…

– Lá vem o Bié – diziam carinhosamente as pessoas despertas no desejo de um cumprimento livre e afável. Na sua natural simplicidade, este bom homem tinha uma elevada natureza humana invejável porque poucos como ele sabiam estar com bonomia e respeito. Sabia perdoar porque no perdão está a luminosidade cintilante do ser feito à imagem de Deus e dos santos…

– Lá vem o Bié,–  diziam quando ele ao longe surgia aberto de coração, bem-disposto e agradecido a Deus com a vida que lhe deu…Modesto, sim, mas honrado e amigo do seu amigo.

– Lá vem o Bié – E ele sabia que o esperavam e que a sua presença era uma espécie de vitamina e isso o confortava e lhe dava felicidade.

E como cancioneiro em liberdade, como cântico elegíaco saído de vozes angelicais, o Gabriel soube sofrer, rendendo-se, aceitando os desígnios do Pai, ouvindo no último sopro de vida a chamada límpida e admirável do Criador que ornamentada em glória e bondade o quis levar para junto dos anjos na felicidade eterna.

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