Sábado, 4 de Dezembro de 2021
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Histórias e episódios da minha aldeia

A eletrificação das freguesias de Guiães e Abaças aconteceu por volta de meados da década de sessenta do século passado, até então, a iluminação dos arruamentos era inexistente e a das habitações fazia-se, maioritariamente, à luz de candeias a petróleo ou azeite, embora também houvesse alguns candeeiros a petróleo, exceto nas tabernas e mercearias em que eram utlizados os chamados gasómetros ou petromaxes, que produziam uma luz esbranquiçada, muito parecida com a luminosidade emitida pelas atuais lâmpadas led, hoje, muito utilizadas pelo seu altissimo desempenho luminotécnico e baixo consumo de energia.

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Recordo-me, quando nos meus tempos de menino e moço, por ocasião das eleições de 1958, disputadas entre Américo Tomás e Humberto Delgado, enquanto se ouvia, pela rádio, a divulgação dos primeiros resultados desse tão contestado ato eleitoral, de assistir junto à taberna do falecido Mário Pereira Magalhães, à operação logística de recarregamento de um desses gasómetros, cujo tamanho e forma faziam lembrar um pequeno extintor de incêndios. O dito recarregamento tinha de ser executado de tantas em tantas horas, dado que o combustível, à base de carbonato (julgo que era assim que se chamava), em contacto com a água existente no mesmo reservatório, se transformava numa massa informe, deixando, assim, de produzir qualquer efeito prático. Essa antiga taberna situava-se no mesmo local onde atualmente se encontram as instalações da Caixa de Crédito Agrícola e a citada operação realizava-se mesmo ao lado, no pequeno beco, ainda hoje existente.

Antes da eletrificação de Guiães, outra curiosidade, digna de registo, prendia-se com a existência da aparelhagem sonora, vulgarmente denominada por Piqué, do falecido Libório, cuja energia elétrica, necessária ao seu funcionamento, provinha de um pequeno gerador a gasolina. Aos domingos à tarde, no largo junto à capelinha de São Sebastião, eram aí realizados grandes bailaricos frequentados não só pela mocidade local, como também pela das aldeias vizinhas, como, por exemplo, Abaças, Bujões, Fontelo, Fonteita, Magalhã, Gouvinhas, etc. Os altifalantes, ou campânulas, como nós as designavamos, eram estrategicamente colocados na varanda do edifício da taberna do saudoso Libório, e o pequeno gerador debaixo do vão da escada exterior que dava acesso ao 1.º andar do imóvel contíguo, sendo coberto por um resguardo de plástico para o proteger dos pingos de chuva que, eventualmente, o pudessem afetar.

As tardes domingueiras tornaram-se assim, graças à iniciativa e espírito empreendedor do saudoso Libório, numa saudável rotina de entretenimento. Porém, num domingo chuvoso o imprevisto aconteceu, isto é, o protetor de plástico enrolou-se à polia do gerador, provocando a sua paragem abrupta. Todavia, quando estas coisas acontecem aparece sempre alguém disponível, dotado de um certo autodidatismo e entreajuda, para tentar resolver situações difíceis. Foi assim que o falecido Amadeu, homem com alguma literacia e determinação, ligado, durante anos, aos ensaios das comédias que faziam parte do programa das tradicionais festas de agosto, pôs mãos à obra e tentou resolver a inesperada avaria mecânica. Mas, apesar de todo o seu voluntarismo e boa vontade, foram infrutiferos os esforços desenvolvidos, para ultrapassar esse percalço. E assim, nessa tarde de domingo, interrompeu-se a rotina que já estava enraizada nos hábitos e costumes das gentes da aldeia e das redondezas.

O pequeno gerador teve de ser enviado para a oficina e só ao fim de algumas semanas foi possível retomar o curso normal das tardes lúdicas domingueiras.

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