Terça-feira, 9 de Junho de 2026
Em FocoIPSS'S: Pilares sociais e de desenvolvimento das comunidades

IPSS’S: Pilares sociais e de desenvolvimento das comunidades

Segundo o Estado são “instituições constituídas por particulares, sem finalidade lucrativa, com o propósito de dar expressão organizada ao dever moral de solidariedade e de justiça entre os indivíduos”. Na realidade são organização com um ‘coração gigante’ que muitas vezes ultrapassam as suas capacidades para ajudar as pessoas da terra

Empregando mais de três mil pessoas, são mais de 90 as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) que no distrito de Vila Real garantem às populações de todo o distrito valências direcionadas à infância, à terceira idade e às pessoas com deficiência. 
Constituindo uma malha complexa de serviços, desde creches a lares de idosos, passado por centros de atividades ocupacionais ou serviços de apoio domiciliário, as IPSS representam um importante apoio social às comunidades mas são também, na maior parte dos casos, organizações que têm um forte papel no desenvolvimento local, através da criação de postos de trabalho e, consequentemente, da fixação de pessoas em territórios que padecem do grande flagelo do interior: a desertificação populacional. 
“Em alguns concelhos há apenas uma IPSS, noutros existem várias”, de uma forma ou de outra, estas instituições são “muitas vezes as maiores empregadoras locais”, explicou Manuel Borges Machado, presidente da União Distrital das Instituições Particulares de Solidariedade Social (UDIPSS) de Vila Real, entidade que atualmente representa cerca de 70 centros sociais, associações ou misericórdias, entre outras.
Segundo o mesmo responsável, estas organizações colaboraram para o “desenvolvimento sustentável de uma comunidade, por duas razões muito simples: prestam apoio social, o que é muito importante sobretudo para as gerações com uma idade muito avançada e na componente da juventude, mas também porque dão emprego, fixando assim pessoas”.
Se em alguns concelhos existe apenas uma IPSS, sendo neste caso normalmente Santas Casas da Misericórdia, noutros as instituições multiplicam-se, sendo de destacar o concelho de Valpaços como o que tem um maior número de organizações. Variando também no tamanho da sua estrutura, algumas contam apenas com o trabalho de “quatro ou cinco pessoas”, como é o caso de alguns centros sociais unicamente focados numa localidade ou freguesia, outras têm pesadas estruturas de funcionamento, contando com inúmeros serviços e chegando a ter até 150 funcionários. “As IPSS investem cerca de 60 por cento do seu orçamento no salário dos trabalhadores, sendo que o restante é para a alimentação e outras componentes”, frisou.
Muitas instituições estão direcionadas especificamente para um determinado tipo de utentes, outras desdobram a sua atividade nas várias valências possíveis, apoiando não só a infância mas também a terceira idade. “Este intercâmbio intergeracional deveria existir sempre, ou seja, onde houvesse um lar de idosos devia haver uma creche, mas isso nem sempre é possível”, defendeu Manuel Borges Machado, explicando que a existência dos serviços dedicados às crianças são também muito importantes para a fixação de pessoas nas localidades.

Listas de espera em lares de idosos são uma realidade em todo o distrito

“Os lares estão completamente cheios. Esgotados. Todas as IPSS têm listas de espera”, sublinhou o presidente da UDIPSS, testemunhando a angústia com que muitas instituições se deparam ao não conseguir dar resposta aos pedidos. “Ficamos muitas vezes prostrados quando uma família nos vem pedir uma cama porque é urgente, porque o seu familiar vai ter que sair da Unidade de Cuidados Continuados, porque caiu, teve uma fratura e agora não pode estar sozinho em casa, e nós somos incapazes de dar essa resposta”, lamentou.
Por outro lado, o mesmo responsável reconhece que não é possível “construir lares e mais lares, só porque são necessários”, devendo o distrito apostar sim nos chamados Serviços de Apoio Domiciliário (SAD).
Apesar de ser uma valência que traz mais custos, devido, por exemplo à dispersão dos utentes no território, Manuel Borges Machado acredita ser muito mais benéfico para os idosos manterem-se no seu lar enquanto tiverem as condições necessárias, sendo providenciado para tal serviços de alimentação, higiene pessoal e domiciliar e, acima de tudo, companhia. “Os colaboradores familiarizam-se com os utentes, criam laços, e isso é muito bom”, sublinhou.
Outra valência considerada como muito importante para a terceira idade são os Centros de Dia, espaços onde os idosos podem passar o seu tempo participando em diversas atividades e convivendo com outras pessoas, regressando depois à noite a casa. “É um serviço muito abrangente, mas devia ser mais, apesar de acarretar também custos muito pesados, porque implica, por exemplo, o transporte dos utentes, e a comparticipação da Segurança Social é mais pequena”, explicou Borges Machado, reforçando a ideia de que “os lares de idosos devem ser considerados como o último recurso”. 

Sensibilizar dirigentes para a partilha de recursos

Contando um “boa rede de IPSS”, o distrito precisa é que as instituições encontrem o melhor caminho para crescer, de forma sustentada e em parceria, pelo menos é isso que defende a UDIPSS, que até ao final do ano vai levar a cabo duas ações de formação direcionadas aos responsáveis que estão à frente das organizações.
“Temos que crescer em função das necessidades, caso contrário estamos a prestar um mau serviço”, defendeu Manuel Borges Machado, acreditando ser possível “crescer sem competir com a instituição vizinha”, através de uma adaptação das valências às necessidades locais e da partilha de recursos, como, por exemplo, transporte para determinadas atividades. 
As duas formações previstas pretendem, assim, “capacitar os dirigentes para algumas novas formas de gerir”, sendo de sublinhar que, na sua grande maioria, à frente das IPSS estão pessoas em regime de voluntariado.
De sublinhar ainda que, no final deste mês, a UDIPSS, vai promover, em Sabrosa, mais uma edição do Encontro Distrital de Dirigentes de IPSS.

  Governo vai reforçar financiamento em 2017

Ministro Vieira da Silva

Numa visita recente a Vila Real, onde inaugurou o Centro Social e Paroquial de Vilarinho de Samardã, Vieira da Silva, ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, revelou à VTM que em 2017 o Governo vai reforçar os acordos de cooperação com as IPSS. 
“Há instituições que têm 50 ou 60 pessoas numa valência, mas só têm acordo para 20. Estamos a tentar garantir um pouco mais de justiça. Esse vai ser o grande objetivo dos novos acordos de cooperação”, explicou.
Vieira da Silva adiantou que o Governo pretende “dedicar uma verba significativa” para o setor social e garantiu que as IPSS poderão contar com um maior apoio do Estado Central, para não estarem “tão dependentes do que conseguem com a comercialização dos seus serviços, porque esse não é o objetivo”.
Segundo Borges Machado, há no distrito algumas instituições com dificuldades financeiras, situações que podem ser fruto de uma gestão menos cuidada mas que muitas vezes tem exatamente a ver com serviços prestados para além do que estava protocolado com a Segurança Social. “Nesta altura de crise, as IPSS foram obrigadas a fazer um trabalho que, embora fosse da sua competência, não eram obrigadas a fazer, porque não eram ressarcidas. Umas, mais que outras, foram mais longe e isso certamente acarretou despesas que não estavam previstas e que trouxeram dificuldades”, lamentou, revelando, no entanto, não ter conhecimento de qualquer caso de “asfixia financeira”. 
À margem da sua visita a Vila Real, Vieira da Silva sublinhou o “papel fundamental das IPSS no território”, pela “proximidade que têm às populações” mas também por serem pilares de desenvolvimento local. 
Defendendo que “nunca se pode dizer que a rede social está completa, porque estão sempre a aparecer novas necessidades”, o governante explicou que atualmente a área que traz mais preocupações são as de o apoio às pessoas com deficiência e à terceira idade. 
“A sociedade portuguesa conseguiu já ganhos importantes na área da deficiência. Há algumas décadas muitas pessoas com deficiência não sobreviviam para além da infância ou da juventude. Hoje em dia isso já não acontece, mas isso cria necessidades”, explicou, considerando ser necessário sobretudo investir na criação de lares residenciais para amparar os utentes depois destes não poderem contar mais com o suporte familiar. 
No que diz respeito à terceira idade, Vieira da Silva lembrou que, além do fenómeno do envelhecimento da população, o país está a deparar-se com outro desafio que advém do novo “surto migratório”. “Algumas centenas de milhares de portugueses saíram para o estrangeiro e deixaram muitas vezes os seus familiares mais desamparados. Temos que lidar com um problema, que há alguns anos pensámos que já não existia: o isolamento dos idosos”.

 


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