Quarta-feira, 20 de Outubro de 2021

Jesus de Nazaré II

Não tendo podido fazer a apresentação do livro para que a havia sido convidado, faço aqui a síntese das notas que elaborara, com a esperança de poder ser útil a alguns leitores.

-PUB-

Esta obra do Papa sobre Jesus de Nazaré nem é uma biografia de Jesus (narração da vida de Jesus desde o nascimento à morte e o seu contexto geográfico e cultural), nem é uma cristologia (reflexão sistemática sobre a pessoa e a obra de Jesus), nem é um livro devocional com intuitos edificantes, mas o livro de um professor de Exegese bíblica com duas finalidades inseparáveis: ensinar como se deve fazer hoje a Exegese da Bíblia e apresentar a figura e a mensagem tais como resultam dessa exegese.

Este segundo volume, tal como o primeiro, deve, pois ser lido com lápis na mão e com vontade de aprender. A recompensa será enorme: a descoberta de Jesus como aquele de que fala em sombras todo o Antigo Testamento e, de modo claro, o Novo. As palavras usadas por Jesus, os gestos, as roupas, o jumento, parecem regatos que confluem neste mar que é Jesus de Nazaré.

No seu trabalho científico o Papa coloca-se no nível de qualquer outro professor universitário (católico e protestante e mesmo descrente) mas desejoso de fazer uma investigação honesta sobre um personagem histórica. Aceita ser contraditado por quem tenha outros argumentos. Ele próprio refere autores de quem se afasta e outros convergentes. Ao longo do seu estudo aparece a nata dos exegetas bíblicos, mormente alemães, anglo-saxónicos, franceses.

O método científico usado pelo Papa é o método histórico até onde ele pode ser usado – as questões geográficas, linguísticas e factos paralelos da história da época; e o método teológico para as áreas científicas da teologia bíblica – o sentido das palavras e dos factos bíblicos do Antigo Testamento. Durante séculos, diz o Papa, o método histórico quis ser o único a ser usado. “Isso já deu o que tinha a dar”: um Jesus mutilado, distante, arqueológico, frio e não real.

A falta de um verdadeiro método gerara dois tipos de Jesus igualmente opostos ao que vem na Bíblia: fora da Igreja, um revolucionário anti-romano e social, um judeu marginal; dentro da Igreja, um Jesus bondoso que nada exige, para quem vale tudo, que tudo perdoa. Esses tipos de Jesus não seduzem ninguém e, pior, são irreais.

Ao absolutizar o método histórico positivista, não aceitando no estudo do personagem nada que ultrapasse o humano atribuindo-o à fé, o historiador assemelha-se ao médico que se limitasse a estudar o doente pelas análises clínicas pela balança e que palpação, desprezando as origens familiares, os sonhos e planos de vida. Nem tal doente, nem tais médicos seriam reais. O Jesus histórico, real, foi sempre alguém ultra, acima do meramente humano.

Ninguém escolha este livro para as horas de sono ou para ler no metro ou com a televisão ligada. Para isso há já muita literatura de cordel, fantasias lendárias, tais como “Quo Vadis?”, “Ben Hur”, “Fabíola”, “Código da Vinci” e outras aventuras comerciais. Este livro requer desejo de saber, vontade de aprender e de viver. Não sendo à partida, como já referi, um livro de edificação moral, educa a inteligência e desperta o coração para os ideais que enchiam o coração de Jesus de Nazaré.

A tendência muito portuguesa de não dar espaço à reflexão nas questões religiosas está na base do alheamento da vida cristã de muitos baptizados, incluindo jovens com estudos secundários e universitários. Por esse motivo, este livro fica bem nas mãos de um estudante, de um universitário, de um dirigente político, de um catequista geral, de um Padre, mesmo de um descrente inquieto.

O tema deste volume, como aliás vem na capa, é a última parte da vida de Jesus: os Ramos, a Ceia, a Paixão, Morte, Sepultura e Ressurreição. Mais uma razão da sua actualidade, agora que se aproxima a Semana Santa.

Para uma mentalidade romântica, a prisão e morte de Jesus foi um passo “lamentável”, o “fracasso” de uma carreira brilhante, que o mundo lamenta e chora na Semana Santa! Ora é exactamente o contrário: essa parte da vida de Jesus é o seu “noivado” a “sua hora”, a festa das “bodas”, a sua “exaltação gloriosa” mesmo antes do Domingo Pascal. A liturgia celebra estes factos com paramentos encarnados, a cor do sangue e do amor.

Externamente, o livro tem na versão portuguesa uma apresentação agradável, pascal, não volumoso, e encadernado, talvez o tipo gráfico pudesse ser mais escuro, o que facilitaria a leitura.

O autor é alemão, directo conciso e onde bastar uma palavra, não escreve duas. Não é um latino, loquaz e eufórico. Não é um livro com afecto e coração.

O preço é convidativo – 15€

Boa leitura.

-PUB-

APOIE O NOSSO TRABALHO. APOIE O JORNALISMO DE PROXIMIDADE.

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo regional e de proximidade. O acesso à maioria das notícias da VTM (ainda) é livre, mas não é gratuito, o jornalismo custa dinheiro e exige investimento. Esta contribuição é uma forma de apoiar de forma direta A Voz de Trás-os-Montes e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente e de proximidade, mas não só. É continuar a informar apesar de todas as contingências do confinamento, sem termos parado um único dia.

Contribua com um donativo!

Mais lidas

ÚLTIMAS

Subscreva a newsletter

Para estar atualizado(a) com as notícias mais relevantes da região.