Como tem sido estes primeiros tempos enquanto candidata cabeça-de-lista pela primeira vez?
“Ao fim de dez anos de programa na qualidade de participante no debate, e em certa medida como entrevistadora dos nossos convidados, estar no papel inverso é diferente. Relativamente a ser candidata, é complicado especialmente quando estamos a trabalhar a tempo inteiro, porque existe um conjunto enorme de solicitações as quais, naturalmente, temos que responder. Temos que corresponder a quem tem expectativas em relação à nossa candidatura, aos nossos concidadãos, temos que corresponder ao nível das instituições, procedimentos e burocracias. Depois também temos que pensar numa lógica de distrito e não apenas de Vila Real cidade. Aquilo que é importante para o distrito e não para o concelho, que eventualmente é onde eu me centro mais, embora tenha uma visão bastante integrada para toda a região”.
Partindo do princípio que era eleita, seria efectivamente uma deputada do distrito?
“Eu encabeço uma lista, que representa muito bem o nosso distrito. Tivemos a felicidade de ter um grupo de trabalho muito interessante, e eu não sou mais do que a pessoa que vai à frente. A nossa lista é para o distrito e tem uma preocupação muito forte em representar na Assembleia da República os interesses do nosso distrito”.
Segundo o líder do CDS-PP, uma das grandes diferenças entre o CDS e os outros dois partidos, é que não depende de caciques locais, tem um presidente que não tem prestar vassalagem a interesses meramente locais que muitas vezes não entram em linha de conta com o bem comum e com as ideias de Portugal enquanto um todo. Tendo Paulo Portas uma ideia definida de uma estratégia que não defende interesses locais ou regionais, defenderá o distrito, mesmo indo contra aquilo que é a orientação do partido?
“Vou claramente defender os interesses do distrito. Mas nunca contra as orientações do partido, até porque os interesses locais são nacionais. Ou seja, quanto melhor estiver representado o distrito e melhor estiver o seu desenvolvimento económico, quanto mais se apostar naqueles que são os interesses estratégicos de cada um dos distritos, quanto mais se promover de forma eficiente as suas marcas (Douro, Tâmega e Trás-os-Montes), melhor estará a economia do país. Essa lógica funciona de baixo para cima. O todo ganha quando a parte funciona bem. O que o Paulo Portas diz é que as políticas nacionais não podem ser subjugadas em interesses locais, que não servem o interesse do país. O nosso trabalho é mostrar que os interesses da região são coincidentes, ou seja, também são do interesse nacional”.
O distrito elege cinco deputados em 230, o que é uma minoria. Os deputados de Vila Real têm pouco peso no todo nacional, o que de facto lhes dá muito pouca margem de manobra para fazer vingar em Lisboa as suas reivindicações. Paulo Portas diz que vai aproximar os deputados dos eleitores ao reduzir o número para os 113. Como é possível que, com menos deputados, haja uma maior aproximação?
“Temos efectivamente cinco deputados, mas não é evidente o trabalho que esses cinco deputados tenham feito. Ontem, por exemplo, tivemos um encontro entre a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte com os cabeças-de-lista dos vários distritos, e posso dizer que do Porto estavam, mas em relação ao nosso distrito, a realidade não foi essa… Aqui se vê logo aqueles que estão nas nossas listas ao nível distrital e não representam os interesses do distrito. É certo que não é preciso ser-se de Vila Real para defender os interesses da população, mas era espectável que os deputados eleitos o fizessem, e isso não acontece. Não vejo que a mudança por essa medida seja para pior”.
Qual é a sua posição em relação à regionalização?
“Antes de mais temos que ver quais os interesses que a regionalização deve ou não servir. E quase que devolvo a pergunta… O que interessa saber em relação à regionalização? Acho que é importante esclarecer que existem temas que têm que ser tratados num âmbito territorial que se poderia aproximar da dimensão de região. E acho que há questões que são estratégicas para Vila Real que passam por essa dimensão, como por exemplo o turismo, temos que empreender a iniciativa económica na área do turismo e têm que ser encontradas as sinergias entre regiões e com o país neste nível da oferta. O Douro deve funcionar como uma unidade territorial turística. Acho que em relação a certos sectores, como o turismo, a floresta ou a agricultura, têm que ser trabalhados nesta dimensão, e isso já acontece. Da mesma forma que existem unidades descentralizadas do Governo. Já tenho mudado de opinião em várias situações, mas, por princípio, entendo que a regionalização não vai trazer mais-valias ao nosso distrito. Vai obrigar a multiplicação de estruturas por quantas regiões houver e obrigar a uma organização da rede em que continuará a haver uma capital de uma determina região. O que pode acontecer com a regionalização é corremos o risco de não representar melhor os interesses de Vila Real. Corremos o risco de, por não termos peso demográfico, estarmos sempre em desvantagem. A duplicação de meios e de estruturas do nível nacional para o regional não constitui uma vantagem certa”.
O que acha do modelo de reorganização no sector da saúde?
“O modelo tem que ser reavaliado. O que temos que assegurar, independentemente do modelo que é escolhido, é que os serviços estejam disponíveis aos cidadãos. Isso é que tem de ser garantido. O papel dos deputados é auscultar, perceber, avaliar, diagnosticar o que está mal e definir caminhos de forma a satisfazer as necessidades das populações. Criar condições para servir os cidadãos, e ainda para promover a fixação de pessoas. Quem está no litoral e quer vir para o interior procura um conjunto de serviços. É assim que se defende a região. A saúde, a educação, a cultura, são bens essenciais que têm que ser assegurados a todos os portugueses. Quais são as áreas estratégicas do distrito, são os serviços ou a indústria? Não. Então temos que de ver quais as áreas que trazem oportunidades, como por exemplo a agricultura e a floresta, e o que está a funcionar mal. Não em parece que seja relevante o modelo horizontal ou vertical das unidades de saúde, interessa-me é que todas as pessoas, de todos os concelhos, possam ter acesso a este serviço”.
Uma última reflexão…
“Estando nós num território rural, é importante dizer que o CDS-PP defende uma política para a agricultura de promoção da iniciativa e a revisão de um conjunto de instrumentos que até agora, efectivamente, não a têm servido, pelo contrário, têm afundado a agricultura. Os fundos comunitários têm sido muito mal canalizados e não tem havido qualquer esforço dos sucessivos Governos para a implementação efectiva da economia agrícola. Instrumentos como o Programa de Desenvolvimento Rural (PRODER) têm falhado redondamente. O PRODER poderia trazer muito financiamento para o interior. A sua execução devia ser fiscalizada porque permitiria dotar a nossa região de competitividade, o que na nossa região não passa pelas grandes indústrias ou pelo aumento de exportações, mas sim pela via agrícola. A oposição PSD também tem feito poucas exigências a este nível. Era necessário que os apoios não se gastassem na máquina da atribuição dos apoios, mas que chegassem efectivamente aos agricultores e à economia rural de que depende o distrito”.



