Domingo, 3 de Julho de 2022
António Martinho
António Martinho
VISTO DO MARÃO Ex-Governador Civil, Ex-Deputado, Presidente da Assembleia da Freguesia de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Lembrando 2005

Hesitei em trazer do baú de memórias um domingo de julho de 2005 em que resolvi ir ver o mar. Estavam vedadas as férias naquele verão quente. Só uma escapadinha para receber a maresia. 

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Ainda não havia A7. Mas a opção foi por Vila do Conde. Seriam duas e meia ou três da tarde quando o telemóvel deu sinal. Do outro lado, uma voz preocupada sugeria que me fosse aproximando de Vila Real, pois seria muito provável que se tivesse de proceder à evacuação de povoações e o Sr. Presidente da Câmara devia estar a necessitar de ajuda.

No caminho, pelo telefone, fez -se o ponto da situação com o autarca em causa e com o responsável pelo Centro Distrital de Operações de Socorro e preparar um conjunto de ações que se deveriam desencadear durante a tarde e noite. O incêndio causou graves danos, uma aldeia foi mesmo evacuada e algumas casas de habitação e outras de arrumos não resistiram; uma outra teve que interromper a sua festa de verão e, numa ação arriscada, só um contrafogo conseguiu neutralizar uma das frentes. Uma outra “escapou-se”, na gíria dos bombeiros e, a mais de 80 km/hora, invadiu a A24, então em construção. Foi uma noite penosa, de sobressalto e angústia. Houve mesmo uma morte. O incêndio prolongou-se noite dentro, saltou o rio para dois municípios vizinhos. E já não havia comunicações. 

Afinal, o que quase sempre acontece em circunstâncias semelhantes, dir-se-á. Pois. E onde estavam os Planos de Emergência de Proteção Civil?… Mas naquele caso, foi possível acionar os mecanismos de emergência ao dispor, convocando um conjunto de instituições que tinham a ver com a situação que se vivia, desde Corpos de Bombeiros do Distrito às Forças de Segurança, ao INEM, Escolas, Misericórdia, Hospital Distrital, Cruz Vermelha. E o Governo, através do Ministro e do Secretário de Estado da Administração Interna, pôde acompanhar, a todo o tempo, a evolução do problema.

Ocorreu-me esta memória, porque li ontem o artigo de São José Almeida. Nem sequer gosto de falar muito da falta de coordenação política da Proteção Civil, a nível distrital. Mas, como diz essa jornalista na sua coluna de o Público «Mudado o Governo (em 2011), foi a vez de Passos Coelho extinguir a Direcção-Geral das Florestas e acabar com os governos civis, matando o seu papel de frente avançada do MAI nos distritos e sem acautelar a delegação de todas as competências. A estrutura de comando da Protecção Civil ficou esvaziada». E António Costa que, nesses anos, afirmara que se acabassem com os Governadores Civis ele nomearia Delegados do MAI, aliás, algo semelhante ao que acontece em Espanha, ainda o não fez. E naquela noite de 17 para 18 pp teria sido importante que o Governador Civil estivesse ali, sei lá, já com o Plano de Emergência Distrital acionado.

Ah! Uma outra lembrança. Os sobreiros daquele vale não escaparam à fúria das chamas. Só que, dois meses depois, estavam a regenerar. Talvez valha mesmo a pena repensar que tipo de florestação fazer.
 

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