Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Lição de amor

Dentro de um café com os vidros embaciados pela chuva e pelo frio observei de mãos dadas e olhares embevecidos de amor um casal iluminado por uma discreta e autêntica felicidade.

Estavam parados sem saberem a razão, mas isso não os preocupava; o olhar dele deixava-se enfeitiçar, assinalado por um suave esplendor. Ele sentia-a como uma mulher ainda muito bela de imensos olhos, cabelos lindos e fartos e pele de alvura que brilhava ao luar.

Tinham bastante idade mas o amor parecia ter crescido mais com o tempo; ali os dois eram uma espécie de vultos imateriais suspensos mas protegidos de um lirismo romântico como se naquele momento se conhecessem e se amassem como nunca. Quem observasse aquele quadro apaixonado ficaria invadido por uma impressão de profunda e irradiante doçura. Olhavam um para o outro como se o tempo não quisesse sair dali, olhavam-se contemplados como se nunca quisessem envelhecer ou mesmo morrer.

E ali estavam de mãos dadas, sorrindo e olhando sem dizerem palavras porque elas naquele pequeno espaço estariam a mais e poderiam prejudicar uma felicidade grandiosa, tocada pela magia das mãos e pelo encanto lídimo do olhar…

Com estes pequenos episódios sentimo-nos melancólicos aspirando o perfume de coisas antigas, como se ouvíssemos músicas que outrora nos faziam dançar nos bailes populares ou celebrado na memória do tempo olhássemos fascinados o luar a balançar-se nas ondas de um lago…

-PUB-

Os dois estavam parados e as palavras continuavam silenciadas porque eram desnecessárias.

Eram quase velhos mas o amor de ambos mostrava-se forte de discreta e comovente beleza de fazer inveja a quem pelo atropelo das palavras tenta apregoar um amor que não existe…

Ai as palavras que saem sem mais nem menos da boca de quem as diz, irrefletidas, espécie de testemunhos de carpideiras, comuns numa sociedade que despreza maliciosamente os seres pensantes, ponderados, racionais. Palavras que desrespeitam os artistas e os intelectuais…palavras que saem de frases mordazes como dizer mal deste e daquele. Palavras que não respeitam os silêncios ou as secretas lágrimas de quem chora por dentro, pois é no silêncio que os gestos e os olhares se tornam nítidos e ganham a sua verdadeira expressão e verdade.

O casal apaixonado não queria dali sair como se a ternura daquele momento fosse eterna, compacta e densa. Evitavam falar para que as palavras não atrapalhassem os olhares e o tocar de mãos… mãos celestes porque havia nelas uma aura luminosa a querer dizer-nos que as vidas dos dois foram cumulativas, enriquecidas no caldear da dor, dos sofrimentos mas também de tantas alegrias partilhadas em infinitas esperanças e devaneios de liberdade… Silenciados, saíram dali quando inesperadamente uma bátega de água desabou impiedosamente dos céus. Fugiram sem pressa para que o calor das mãos não arrefecesse o entusiasmo vibrante da felicidade de ambos. Fugiram nos mesmos pensamentos, na mesma ternura e alegria de estarem juntos. Subiram a avenida como dois jovens adolescentes porque os verdadeiros sonhos não morrem nunca com a idade.

Subiram a Avenida do Comandante Carvalho Araújo enquanto em frente no Conservatório de Música se ouvia um solo infinito de um instrumento musical, indecifrável no timbre porque a chuva e o vento davam aos sons uma voz em surdina, delicados sopros de delicadas existências de vida…

A música ajuda-nos a sentir e a assumir as emoções e os afetos mais fortes que estão associados aos grandes momentos da vida humana… aqueles sons que se ouviam eram uma espécie de canto, uma representação de carga afetiva que tocava aquele casal e os tornava ainda mais felizes numa intimidade que só aos dois pertencia…

ARTIGOS do mesmo autor

NOTÍCIAS QUE PODEM SER DO SEU INTERESSE

ARTIGOS DE OPINIÃO + LIDOS

Notícias Mais lidas