Vila RealLobo amputado já regressou ao seu ambiente selvagem

Lobo amputado já regressou ao seu ambiente selvagem

Depois de uma recuperação de cerca de dois meses, o lobo que foi resgatado de uma armadilha pelo Núcleo de Proteção do Ambiente da GNR regressou ao seu habitat selvagem. Esta foi a primeira vez em Portugal, e “provavelmente” na Península Ibérica, que um lobo é devolvido com sucesso à natureza.

O Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) e a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), através do seu Centro de Recuperação de Animais Selvagens (CRAS), estão a monitorizar o lobo que, num caso único em Portugal, foi devolvido ao seu habitat natural no dia quatro, depois de um período de tratamento que exigiu a amputação da sua pata traseira direita.

“Optou-se por libertar o animal uma vez que ele apresentava uma condição física capaz. Apesar de ter ficado sem uma pata, teve uma boa cicatrização, aumentou de peso, ganhou robustez física e tinha agilidade, por isso concluiu-se que tinha condições de sobrevivência”, explicou José Paulo Pires, diretor-adjunto do Departamento de Gestão de Áreas Classificadas do Norte do ICNF.

De recordar que, o lobo, com cerca de um ano de idade, foi resgatado de uma armadilha ilegal no final de abril, na localidade de Meixede, concelho de Montalegre, tendo sido levado depois para o CRAS da UTAD, onde recebeu o tratamento veterinário que, tendo em visto a sua sobrevivência, acabou com a amputação da pata.

Segundo José Paulo Pires, até à data nunca tinha sido libertado um lobo em Portugal, isso porque, ao contrário das aves e de outras espécies que são devolvidas ao seu habitat natural em grande número, trata-se de um procedimento muito mais complexo, nomeadamente no que diz respeito à garantia de um contacto mínimo do animal com pessoas. “Houve um contacto limitado às intervenções cirúrgicas e aos tratamentos, que decorreu sempre com recurso a anestesias ou sob sedativos. Ele não teve um contacto social com pessoas, o que permitiu a manutenção das suas características de comportamento selvagem”, sublinhou o mesmo responsável.

O lobo foi libertado numa zona próxima de onde foi resgatado, tendo ainda sido munido de um equipamento de GPS que permite agora a sua monitorização e o acompanhamento do sucesso de integração na alcateia de onde se pensa ser originário, como explicou o diretor-adjunto do ICNF. “É possível saber que já circulou alguns quilómetros, embora as informações das primeiras duas semanas não sejam muito significativas, uma vez que ele ainda está numa fase de exploração do território”.

O sistema de informação GPS vai ainda “fornecer elementos adicionais” que contribuirão para o desenvolvimento de conhecimentos que venham a facilitar a devolução à natureza “de outros casos semelhantes que possam vir a acontecer”.

Mais, “se alguma coisa correr mal, o emissor também vai facilitar a deteção bastante próxima do animal e, a partir daí, utilizar métodos de captura que já têm sido utilizados em várias situações”, adiantou José Paulo Pires.

Apesar de ter sido um “final feliz”, o mesmo responsável recordou que a história do lobo começou com “um ato infeliz”. “Esta situação resultou de um ato ilegal. A armadilhagem, mais que ilegal, é insustentável e imoral, porque atua inferencialmente sobre todo o tipo de animais, sejam selvagens ou domésticos, com um claro prejuízo sobre um vasto leque de espécies”.

Também a utilização de venenos “tem uma repercussão mais nefasta sobre todo o tipo de animais”, importando por isso “erradicar este tipo de atuações, sobretudo quando se fala de espécies ameaçadas, com é o caso lobo, que tem uma intervenção muito significativa nos fenómenos de autorregulação dos territórios onde se encontram”.

“A presença do lobo é um indicador de que o território onde estamos inseridos ainda tem alguma capacidade de autorregulação. É uma mais-valia para a sociedade”, defendeu o mesmo responsável, contabilizando que a população de lobos está mais ou menos estável em Portugal, contando, desde os últimos censos, como cerca de 300 animais na região norte e cerca de 50 no sul e centro.

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