Terça-feira, 15 de Junho de 2021
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Manuel Escaleira – Uma força da natureza

Há pessoas que nos espantam e nos levam a pensar que o acumular dos anos não significa decrepitude nem demência. Há pessoas que são fantásticos exemplos de vida.

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Manuel Escaleira, natural de Coêdo, Vila Real, é uma figura incontornável de lucidez e sanidade intelectual. Com 96 anos de idade, ele tem um porte e uma juventude que impressionam. Discorre histórias de outros tempos com verve e apaixonadamente conta-as como se as estivesse a viver no momento e quem o ouve falar não quer ir embora, olha-o nos olhos para ele continuar a contar.

Toda a vida foi cabreiro. Hoje, ainda gosta do milagre da vida, aproveitando, em pleno, os pequenos prazeres de cada momento e abençoa Deus e os santos por ainda estar vivo e sentir o esplendor do nascer do sol bem como todos os fenómenos da Mãe Natureza, mas ama sobretudo o contemplar das estrelas à noite imaginando-se no meio delas.
A sua dieta alimentar circunscreve-se a tudo quanto a terra lhe dá, sendo as batatas o prato de todos os dias enriquecidas por vezes com ovos cozidos e frango de capoeira. Caldo de galinha come quase todos os dias com prazer e sofreguidão. 

Sempre bebeu vinho tinto às refeições e só parou durante 2 anos, abdicando dele por causa da sua primeira mulher, entusiasta por uma pingoleta abastada a todas as refeições e por vezes às escondidas de manhã antes do cantar dos galos. Manuel Escaleira fê-lo com sacrifício para que a sua mulher não tivesse argumentos para beber nem exigências estapafúrdias. 

No entanto, ela vingou-se e água também não bebeu. Foram dois anos dramáticos e tristes em toda a casa apercebendo-se disso as galinhas que passaram a por menos ovos. 
Proibida do vinho a infeliz morreu e Manuel Escaleira em breve arranjou outra mulher, 20 anos mais nova, airosa e cantadeira, mas pronta para ajudar o homem viúvo. Afinal o negócio das cabras era rentável e dava no tempo quase para enriquecer. 

Manuel Escaleira contava-me histórias num rol sem fim e uma delas contagiou a minha emoção de o ouvir contar olhando-o nos olhos que também eles pareciam falar.
Já casado, estava ele no arraial da Senhora da Saúde, corria o ano de 1948, a dançar com uma rapariga “privada” como ele lhe chamou. A mulher do matrimónio na altura rezava dentro da Igreja, rezava suada pelos calores da devoção com um velho rosário, distraída dos prazeres do seu marido que no largo fazia furor. Manuel Escaleira fumegava na dança esquecido da sua jovem mulher. Com o chapéu para trás parecia deslizar no ritmo alucinante da filarmónica. 

Inesperadamente um jovem caiu-lhe aos pés ensanguentado com a garganta degolada pelo corte assassino de uma faca. Naquele momento tinha havido uma rixa feroz pela disputa da mesma rapariga para a bailação de uma estonteante rapsódia de Ribeiro da Silva. Manuel Escaleira foge apressado e vai buscar a sua mulher à igreja, que naquele momento ainda chorava penitenciada de emoção cm rezas profundas devotadas à Senhora da Saúde. Felizmente o assassino foi perseguido e apanhado e Manuel Escaleira livrou-se de ir para a cadeia pois as suspeitas haviam de cair sobre ele.

Despedimo-nos dizendo-me ele que há dias semeou sozinho três arrobas de batatas e que vai ser ele a tratar delas, pois não quer ver a sua “jovem mulher” sujar os pés.
Ouvindo este homem falar, hoje com 96 anos de idade, ganha-se a latitude dos afetos e dos sentidos temperados das emoções, ganha-se uma vontade enorme de viver, porque nas suas palavras há luz que faz cintilar, hipnotizando quem as ouve. 

Há um fluir na prosa poética como uma oração a um deus desconhecido mas com o qual nos sentimos bem e nos identificamos.

Ouvindo-o falar parece que somos eternamente jovens.

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