Sábado, 20 de Julho de 2024
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Medicina e literatura

A medicina tem uma história fascinante, mas algo misteriosa. Segundo a mitologia a fundação da medicina deve-se a Asclépio filho de Apolo e de uma mortal. Apolo era o deus da poesia e Asclépio o deus bastardo da medicina.

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Esta associação entre os deuses da poesia e da medicina explicaria a relação entre medicina e literatura. O 17º descendente de Asclépio terá sido Hipócrates (Séc. V, a.C.), pai da medicina que desde logo estabeleceu: “Em todas as circunstâncias exercerei a minha arte com pureza e honestidade”. A prática desta arte exige cultura, sabedoria e conhecimento, por isso os médicos amantes da literatura e das artes são os que têm melhores condições para o seu exercício.

Sir William Osler (1849-1919), um dos pais da moderna medicina, defendia a relação entre a medicina e a literatura, considerando a cultura literária fundamental na formação do médico. Senhor de uma vasta cultura, Osler justificava a importância dessa relação: “O exercício da medicina clínica tem um grande componente literário. O domínio da linguagem é imprescindível. (…) Para compreender as emoções, os temores, as preocupações, e os conflitos emocionais dos doentes, muitas vezes, não há melhor fonte de informação do que a literatura”.

Os médicos cultos parecem ter maior capacidade de empatia e mais imaginação, permitindo-lhes mais facilmente ganhar a confiança dos doentes e assim entrar na sua intimidade para os compreender melhor.

No exercício da medicina, o poder de comunicação entre médico e doente é essencial, e este consegue-se lendo, escrevendo, conferenciando, discutindo, fazendo aquilo que Steiner designou como “joging com a memória”.

Mesmo após o advento da ciência médica no século XIX, a arte médica mantém a sua importância e, por isso, modernamente, se diz que a medicina é uma arte baseada na ciência. Muitos destes médicos cultos e com facilidade em comunicar sentiram o apelo da escrita. Assim, surgiram os médicos-escritores, ou seja, aqueles que, exercendo o seu ofício de médicos com dedicação e paixão, começaram a escrever por necessidade, por vocação, por prazer, ou por qualquer outra razão, alguns atingindo assinalável êxito.

O tipo literário variou, desde histórias romanceadas da sua vida clínica, conferências que passaram ao papel, ensaios sobre temas médicos ou outros, biografias, etc. Mas, para além dos médicos que gostam de escrever e de publicar os seus escritos, nesta relação entre a medicina e a literatura, destacam-se os escritores-médicos, isto é, médicos que fazem da escrita a sua principal atividade, sendo a medicina como que um complemento.

Um dos mais famosos escritores-médicos foi Anton Tchekov, russo, do século XIX, que exercia medicina durante o dia e escrevia à noite e por isso dizia “ter a medicina como mulher e a literatura como amante. Quando me canso de uma, passo a noite com a outra”. A lista nacional e internacional é extensa e ilustre.

No nosso país merece destaque Miguel Torga, pseudónimo do médico Adolfo Rocha, o escritor-médico português mais conhecido e com maior sucesso. Sobre ele me debruçarei em próximos artigos.

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