Barroso da Fonte
Barroso da Fonte
Escritor e Jornalista. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Medicina Popular candidata a Património Cultural da Humanidade

Aos 33 anos de idade, Cristo ascendeu ao infinito, fundamento da religião católica.

Em 1983, houve um padre católico que, depois de cura feito, de pároco instalado e de líder das freguesias mais raianas do Couto Misto de Rubiás – hoje reabilitado com a Associação Cívica denominada “Amigos do Castelo da Piconha” – se voltou para o aproveitamento das ciências humanas, maior riqueza da etnografia, antropologia, etnologia e afins que se encontravam, nesses últimos anos do século XX, como que acauteladas para serem intuídas por algum naturalista mais devotado.

Esse cura de Tourém e de Pitões, mais tarde, transferido para «reitor» de Vilar de Perdizes, herdeiro de outro nome sonante dos inícios desse século – Domingos Barroso que se notabilizou na Caça e que nos legou “O Perdigueiro Português”. O cura e reitor, Lourenço Fontes passou a dispor das ferramentas necessárias, no espaço próprio e no tempo certo da penetração sociológica. A sua figura humana, o seu perfil quase moldado à rusticidade planáltica do Larouco, da Mourela e do Gerês, no lugar certo e com os conhecimentos suficientes para dar à luz da democracia o acervo popular que traduziu através dos congressos populares de medicina popular, fizeram desta região fronteiriça uma espécie de catedral do paganismo ibérico, na senda da Lusofonia que a CPLP vem domesticando para invadir, culturalmente, a Língua Portuguesa.

 Com o início, em 2002, da nova fada milagreira, a que o mesmo cura denominou: Dia das Bruxas em todas as sextas-feiras do ano, o slogan dos congressos de medicina popular mudou de palco. E aí entrou o vírus da política.

Nunca mais as dezenas milhares de romeiros que as televisões, disputaram em nome das audiências, respeitaram do populismo do «bruxo-mor». Uma única noite na vila com todo o comodismo e histerias excitantes do Belzebu à solta, endemoninhou os caminhos de Vilar de Perdizes que nunca mais será o que foi, embora o «bruxo-mor» seja o mesmo cura, reitor e vigário, já desapegado do poder que teve. Aproveitou a vila o que Vilar perdeu. Entretanto, o seu dinamismo, a sua inegável vocação para o exótico e o seu espírito de desobediência à hierarquia religiosa e também política, atormentaram o ideal libertário. A edição do 33º Congresso de Vilar de Perdizes pegou no desafio da organização, em avançar com o termo “Medicina Popular” para uma candidatura ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial da UNESCO. 

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Nas conclusões afirma-se que o mentor do certame, padre Fontes, é taxativo: “estamos cá para isso. A acontecer, será a injeção que o evento necessita para o catapultar ao patamar conquistado outrora. O coração de Vilar de Perdizes – uma das mais conhecidas freguesias do concelho de Montalegre – voltou a palpitar forte com mais uma edição do Congresso de Medicina Popular. Desde o dia inaugural, a pacatez da aldeia foi sacudida pelo movimento que gira em torno de um cartaz que teima em resistir. O padre Fontes continua a ser a bússola. Olha para a edição 33 desta forma: “é curioso o número a que chegou o Congresso de Medicina Popular… é um número fatídico ou sugestivo. A morte de Cristo não foi morte eterna, foi descanso para a ressurreição”. As conclusões desta última edição ficam aqui relatadas. Lê-se que o repto brotou da experiência do antropólogo Luís Marques. Desde 1983 nunca faltei a qualquer manifestação, numa espécie de irmão-gémeo do Padre Fontes. Ainda dia 31 de agosto o reafirmei na «retrospetiva das 33 edições realizadas», no mesmo palco em que em 1983 apadrinhei essa manifestação popular.

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