Quinta-feira, 7 de Julho de 2022

Milhares de alunos entram pela primeira vez

“Ensino está cada vez mais exigente e rigoroso, mas os trabalhos de casa já não são um método aconselhável de estudo”.

Depois das extensas férias de verão, com muito calor, praia e diversão, o mês de setembro, com o início de mais um ano letivo, implica o regresso de milhares de crianças e pais à rotina das aulas. O tradicional hábito de se comprar o material escolar dos filhos, de organizar a sua mochila, de distribuir tarefas e de levar as crianças à escola começou para milhares de pais, na semana passada, em Portugal. 

Contudo, esta azáfama, para os pais que têm filhos que vão pela primeira vez para a escola, converte-se, antes, em “nervosismo”, “ansiedade” e “preocupação” sobre a adaptação das crianças ao meio escolar, à nova escola, aos novos professores e amigos, mas, sobretudo, ao facto de terem de ser mais responsáveis. 

Desta forma, num dia tão especial para a imensa maioria das crianças, o jornal “A Voz de Trás-os-Montes” (VTM) acompanhou o primeiro dia de aulas de alguns meninos que frequentam pela primeira vez a escola primária, conversando com vários pais, professores e alunos. 

“Enquanto mãe, sei que o ritmo vai ter que ser um pouco mais acelerado, mas sinto-me preparada. Vou ter que ir buscar a minha filha mais cedo para lhe dar apoio nos trabalhos de casa, porque no primeiro ano é uma diferença muito grande e eles não estão habituados a chegar a casa e ter que fazer as atividades curriculares que o professor mandou”, conta Juelma Letra, mãe da Leonor que frequenta este ano, pela primeira vez, o primeiro ano de escolaridade. Quanto à sua filha, a mãe refere que ela se sente muito ansiosa, mas com vontade de aprender. “A Leonor está muito entusiasmada acerca de como vai ser o primeiro dia de escola. Tem-nos feito muitas perguntas relativamente à escola, pelo que acredito que esteja confiante e com vontade de aprender. O facto de já ter estado no infantário é uma ajuda na sua adaptação”, conta-nos. 

Já Elisabete Magalhães, em conversa com a VTM, partilhando da mesma ideia, conta que o filho, Leonardo, se sente “muito motivado e preparado”, sendo que “gosta bastante da escola e que o facto de conhecer mais algumas crianças fará com que se sinta mais confiante”. 

Ensino mais exigente e rigoroso

Relativamente ao ensino, de acordo com a opinião de vários professores, está hoje em dia, mais “exigente” e “rigoroso”, com os alunos demasiadas horas sentados na sala de aula, com programas cada vez mais extensos e difíceis, onde o tempo para “brincar” e “desenvolver a motricidade” dos alunos é cada vez mais escasso. 

“O ensino, contrariamente àquilo que as pessoas pensam, está cada vez mais exigente, cada vez, os miúdos, precisam de aprender mais e melhor. Relativamente aos meninos mais pequenos é um crime tê-los uma quantidade de horas sentados na sala de aula. Estes miúdos vão ser uns analfabetos motores, porque não aprendem, estando muito protegidos pela família, a trepar árvores, a cair, a esmorrar-se, a correr e a brincar, algo que todos nós aprendemos, ao longo da nossa caminhada”, aponta Maria João Machado, professora há 38 anos. 

No entanto, as crianças apresentam-se, atualmente, com um conhecimento muito mais avançado do que outrora. Hoje em dia, “as crianças aprendem a ser adultas mais cedo, assistem a uma panóplia de documentários, de programas, a jogos na televisão que apesar de tudo, também têm o seu lado positivo, alargando-lhes os conhecimentos”, aponta o professor Fernando Boura, diretor da Escola EB 1, nº 2, em Vila Real. 

Fernando Boura salienta, ainda, que o ensino se encontra “mais completo” e não mais “rigoroso”. Na sua opinião, os programas oferecem, atualmente, muito “mais oportunidades de conhecimento aos alunos do que antigamente”. 

“Hoje em dia, os programas apelam muito mais ao raciocínio lógico, à capacidade crítica e à experimentação, pelo que todos esses fatores contribuem para que o ensino seja mais estimulante e que potencie, nas crianças, todas as suas capacidades”, refere. 

 

Os TPC'S antigamente eram uma tortura 

 

Relativamente aos trabalhos de casa (TPC’s), a questão que mais preocupa os pais e os alunos que iniciam agora um novo ano letivo, tratando-se de um assunto que gera alguma controvérsia no meio educacional, a professora Maria João Machado apresenta-se “totalmente contra a marcação de TPC´s às crianças”, revelando que “antigamente era uma tortura”, pelo que são “desnecessários”, uma vez que “as crianças já passam demasiadas horas na escola e os programas são muito exigentes”. 

Sobre este assunto, a professora Maria João Machado recomenda um outro método de ensino, apelando à “partilha de leituras” entre pais e filhos, não das lições da escola, mas antes de estórias ou de aventuras, uma vez que “os manuais nem sequer vão para casa, pois ficam na escola”, aponta. 

Numa escola onde entraram 72 alunos, num total próximo de 250, um dos problemas que dificulta, segundo os professores, o “acompanhamento individualizado do aluno” é o facto de cada turma ser composta por 24 alunos, sobretudo, as turmas de 1º ano. 

Quanto a esta questão, o diretor da escola, Fernando Boura, demonstrou-se apreensivo no que diz respeito à aprendizagem dos alunos, nomeadamente, “daqueles que necessitam de mais apoio”. 

As turmas têm demasiados alunos

“Houve uma diminuição de dois alunos, do ano passado para este ano, contudo, o ideal seria que as turmas fossem mais reduzidas, até porque os recursos humanos, nomeadamente, a nível de apoios pedagógicos, professores que estão a coadjuvar o professor titular, não são numerosos e existem alunos que necessitam de um acompanhamento muito mais próximo e eficaz”, conta-nos. 

A escola conta com 10 professores titulares de turma e cinco professores de apoio, o que segundo Fernando Boura, é “insuficiente”, dado o número de alunos que a escola apresenta. “Para as turmas de 24 e 26 alunos há essa necessidade, era de todo necessário que houvesse uma coadjuvação, porque há alunos que precisam de um acompanhamento muito individualizado, e em turmas muito grandes, o professor tem muita dificuldade em atender as necessidades individuais”, alerta. 

Contudo, o diretor da escola refere que “procura gerir os recursos da melhor maneira, que mesmo não sendo a situação ideal, trata-se de um trabalho de qualidade”. 

Relativamente à evolução da escola, nestes últimos anos, tem havido uma evolução positiva não apenas no desenvolvimento do ensino, mas também na prestação de apoios às famílias. “Esta escola, como muitas outras, oferece, atualmente, um apoio à família, com o corpo de funcionários que despende para prestar apoio e acolhimento, da parte da manhã, aos alunos que chegam às 7h45 e um prolongamento, à tarde, aos alunos que saem às 19h00, considerando ainda o período de intervalo”. “Esta componente veio, sem margem para dúvidas, complementar o ensino e ajudar as famílias nas suas vidas profissionais”, esclarece o professor e diretor, Fernando Boura. 

No entanto, com pouco mais de uma semana de aulas, os pais encontram-se, hoje, com as conhecidas listas de material escolar que cada professor e escola recomendam para os seus filhos, pelo que subsistem algumas dificuldades não apenas na sua compra, mas sobretudo na gestão financeira familiar. Apesar do Governo ter deliberado oferecer manuais escolares a todos os alunos que se encontram a frequentar o 1º ciclo, o mercado do material escolar é, ainda, “uma despesa bastante cara no orçamento familiar de vários portugueses”. Dado esta situação, a VTM analisou várias listas de materiais escolares relativos não só ao ensino básico, mas também ao 3º ciclo, denotando que a escolha, do consumidor, pela marca branca, ao invés da marca, é fundamental para a despesa não ser tão extravagante. 

De acordo com a nossa análise, a qual contou com a análise dos mesmos materiais em diversas superfícies comerciais, uma família que opte por materiais de marca gasta em média, com um filho, que frequente o 1º ciclo, 110 euros. Ao passo que a mesma família, na compra dos mesmos materiais, mas de marca branca, gasta apenas, em média, 15 euros. Quanto ao 2º ciclo, uma família que opte pela marca branca poderá poupar mais de 100 euros e no 3º ciclo mais de 150 euros.

 

Depoimentos

Luís Fernandes, pai da Beatriz

“Nestas alturas há sempre um pouco de nervosismo, ansiedade e receio de que alguma coisa não corra bem. Ela tem feito muitas questões, está preocupada, mas irá tudo correr bem.”

 

 

 

Hugo Letra, pai da Leonor

“Quem está mais ansiosa para hoje é mesmo a minha filha. Acorda há dois ou três dias com muita vontade de ir para a escola. Ela tem muita vontade de iniciar o novo ano letivo. Está desejosa de aprender coisas novas, e acho que é um desafio novo para ela.”

 

 

Cristiana Ramos, mãe da Beatriz Ribeiro

“Os pais ficam sempre um bocadinho reticentes relativamente à nova adaptação dos filhos à escola, ao meio escolar, que é sempre diferente de um infantário. “

 

 

 

Maria João Machado, professora

“Na primeira semana, vamos tentar que eles gostem de vir à escola. E para fazer isso vamos tentar fazer atividades que lhes agradem, que estejam de acordo com a idade e que os motive, começando por utilizar os quadros interativos que são sempre muito interessantes."

 

 

Fernando Boura, professor

“Nós costumamos dizer que, hoje em dia, uma criança de 7 ou 8 anos tem um conhecimento muito mais vasto daquele que nós tínhamos no nosso tempo. Nós tínhamos uma motricidade mais desenvolvida. Em termos de conhecimentos, existem uma panóplia de documentários e de jogos na televisão, que, apesar de tudo, também têm o seu lado positivo, alargando-lhes os conhecimentos."

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