Caros amigos: Viemos a Valongo de Milhais sufragar o Soldado “Milhões”, o herói da Primeira Guerra Mundial, da qual se celebra o centenário do armistício, o centenário do fim da trágica guerra, que ceifou milhões de vidas. O tratado de Versalhes, que foi demasiado humilhante, suscitou ódio e desejo de vingança, no coração dos vencidos e criou a instabilidade social e política e as ditaduras. Abriu caminho ao nazismo e ao fascismo, a guerras civis, revoluções e conflitos. À primeira guerra mundial seguiu-se a segunda, mais mortífera ainda. Foi o século breve do genocídio, do ódio, da retaliação e instabilidade. Por isso, o manifesto Schumann quis acabar com ódio e revanchismo, recorrendo à política da mão estendida, à reconciliação, desenvolvimento, diálogo e à cooperação, unidade e reconciliação Europeia. Contra a retaliação e confronto apostou na unidade da casa comum europeia, no progresso e no entendimento entre os povos.
Alheio a jogos políticos que levaram Portugal para a guerra sangrenta e desnecessária, porque as guerras são todas estúpidas e revelam falta de entendimento e de diálogo, o Soldado Milhões cumpriu a sua missão, sacrificou-se, cumpriu o dever militar, expôs e deu a vida, serviu, abnegadamente, a sua pátria e protegeu os pobres da sua terra, não obstante a sua pobreza. Era um homem bom, um homem que expôs a vida e serviu a comunidade. Nasceu nesta freguesia de Valongo de Milhais, no dia 9 de Julho de 1895, boi baptizado nesta Igreja e recebeu o nome de Aníbal Augusto Milhais. Aqui faleceu, octogenário, no dia 3 de Junho de 1970, sendo então Pároco de Valongo o Padre José Maria Alves Machado, hoje Pároco de Carrazedo de Montenegro e meu condiscípulo. O Soldado Aníbal Augusto Milhais casou com D. Teresa de Jesus da qual teve 9 filhos e muitos netos, entre eles o amigo Padre José Aníbal Mendonça, aqui presente, neto do herói que homenageamos e actual Provincial da Congregação dos Padres Salesianos, o qual sobre o seu avô melhor do que ninguém podia contar muitas outras coisas.
O heróico soldado Aníbal Augusto Milhais e Teresa de Jesus, sua esposa, eram pobres, como todos os seus conterrâneos naquela altura. Vivia, com muitas dificuldades, muito parcamente do trabalho do campo, mas, como as duas viúvas das leituras do domingo de hoje, era generoso, com os pobres, não obstante as dificuldades, em criar o grande número de filhos. Normalmente é assim. São os pobres a ajudar os indigentes. O casal vivia do trabalho do campo, sem conforto e sem proventos, não obstante o Estado Português lhe ter construído uma casa, que, infelizmente, já se encontra, em ruínas, mesmo aqui, em frente à Igreja da Paróquia de Valongo, e de lhe ter também atribuído uma mísera pensão, que não dava para grandes luxos.
A vida e obra do Soldado Milhões, Milhais de nome e natural desta bela e simpática paróquia de Valongo, no Concelho de Murça, prima, como a das viúvas das leituras deste Trigésimo Segundo Domingo do Tempo Comum, pela apreciação do valor da vida humana, dos pobres e explorados, na sociedade, e do valor e importância dos simples e incapacitados, na transformação do mundo, que é obra do amor e do empenho dos cidadãos, sem esquecer o óbolo da viúva, dos pequeninos, simples e humildes, que nunca deixam de fermentar o mundo e de sensibilizar os corações rectos, levando a sociedade a ser diferente e os humanos a serem cada vez mais humanos.
O discurso da pobreza exige a solidariedade e a atenção ao bem comum, à repartição dos bens da terra e à função social que os bens devem ter, dado que são património dos seres humanos. Deus criou os bens da terra para todos os seus filhos. Muita gente balbucia Pai Nossos e esquece os irmãos, ignorando as exigências da Doutrina Social da Igreja. Ora, o amor a Deus pede e exige, como demonstração, o amor aos irmãos, o empenho social, a atenção ao bem comum, à solidariedade e aos valores da verdade, da justiça e da liberdade, convictos do destino universal dos bens da terra e da defesa do incomensurável respeito da dignidade da pessoa humana. S. João diz: “ninguém diga que ama a Deus a quem não vê, se não ama o irmão que vê. Esse é um aldrabão”. A coerência cristã pede e exige que o amor a Deus se mostre, no amor aos irmãos necessitados, no próximo que está perto de nós, pois Deus quer ser encontrado e quer ser amado e servido, nos irmãos, que precisam, devendo comportarmo-nos, como o bom e misericordioso Samaritano da Parábola, que Jesus contou, o qual desceu do cavalo, curou as feridas ao ferido e o levou à hospedaria.
As viúvas das leituras de hoje são exemplares nisto. Uma dá tudo o que tem e por isso, como diz Jesus, dá mais que todos os outros, para o culto e erário do Templo. Ela deu não só o supérfluo, o que se deve dar a quem precisa, mas deu também o que lhe fazia falta, para viver, com dignidade. Por isso Jesus, que lê nos corações, viu bem e louvou o óbolo da viúva pobre, que deu tudo quanto tinha. O exemplo da viúva de Sarepta, que acolheu o profeta Elias e lhe deu tudo quanto tinha manifesta bem a generosidade duma pobre viúva, para com o próximo, para com o profeta fugitivo e ameaçado, pelo poder político, pela agrura da vida e na miséria extrema. Esta viúva partilha, crê na palavra profética e dá tudo sem reservas. E, por isso, é contemplada com o milagre de não ver faltar a farinha, na panela, nem o azeite, na almotolia. O amor é fecundo, é criativo, empreendedor e procura o bem do outro, sendo, por isso, recompensado. Daí São Francisco de Assis dizer: “é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado e é morrendo que se vive para a vida eterna”.
Os Profetas denunciam frequentemente a injustiça e o atropelo à dignidade humana. Os Profetas denunciam a violência feita ao indigente e ao pobre e a opressão dos órfãos e viúvas. Este pecado de opressão dos débeis é um dos quatro gritantes cuja malícia é tão grande que bradam ao céu, como diz o Catecismo que elenca os Pecados que Bradam ao Céu, por esta ordem: homicídio voluntário, pecado sensual contra a natureza, opressão dos órfãos e viúvas e não pagar o salário a quem trabalha.
A segunda leitura aponta o exemplo de Jesus Filho de Deus, que se fez um de nós e deu a vida, por nós, porque Ele “ não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em redenção” (Mc. 10, 45). Imitando o gesto e a vida do Redentor, também o nosso heróico soldado Milhões, glória de Valongo de Milhais e do Exército Português, na sequela de Jesus Cristo, nosso Salvador, nas horas de apuros e de dificuldade, não temeu enfrentar a morte, por amor à Pátria. Expôs-se a sacrificar a vida, com enorme coragem, colocou o peito às balas e, depois do dever cumprido, voltando à sua terra, continuou o seu trabalho de agricultor, levando uma vida muito simples e colocando a existência ao serviço da família, sem esquecer os pobres e os humildes, repartindo com os necessitados, mais pobres do que ele, o pouco que tinha. É pois justo honrar e recordar os mortos e, como diz o nosso grande poeta Camões, recordar e cantar todos “aqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando”. Que Deus Nosso Senhor nos dê a graça de cumprirmos os deveres cristãos e cívicos e incremente em nós o desejo de servir o bem comum, aumentando entre nós os laços da solidariedade, que nos deve caracterizar como homens e filhos de Deus.



