A finalidade directa das Missões é anunciar o Evangelho e implantar a Igreja com pessoas e meios locais. Onde a Igreja ainda não é capaz de viver pelos seus meios (pessoas e bens) diz-se que estamos em «terra de missão». O nosso Alentejo considera-se quase terra de missão, e qualquer diocese corre esse perigo se não garantir permanentemente vocações sacerdotais, religiosas e laicais.
2 – O «dia das Missões» era popularmente conhecido entre nós como uma jornada de ajuda ao povo africano, os «pretinhos», como se dizia entre as crianças. Vinha essa linguagem do tempo colonial com levas de padres portugueses e religiosas a trabalharem em Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe. Nessa altura, todo o dinheiro recolhido em Portugal era, por consentimento de Roma, canalizado para essas terras. Trás-os-Montes deu um contributo preciso de padres, de religiosas e de bispos. Rigorosamente, porém, a jornada das Missões tem em vista o mundo inteiro. Os próprios fiéis africanos de pequenas e pobres comunidades são convidados a dar o seu contributo pessoal para a evangelização.
Este domingo não é, portanto, um dia de solidariedade social dos países ricos em favor dos pobres, mas uma vivência interna da fé, fazendo compreender que a fé é um dom a difundir, como recorda o Papa na sua mensagem: «todos aqueles que encontraram o Senhor ressuscitado sentiram a necessidade de O anunciar aos outros».
Entre os meios necessários ao trabalho missionário estão a oração, a recolha de bens económicos nas mais variadas formas (dinheiro, máquinas, livros, remédios, tecnologia) e a ida pessoal de modo definitivo ou temporário. Há hoje jovens e adultos que dão alguns anos da sua vida profissional ao trabalho missionário integrando-se numa «comunidade missionário oficialmente estruturada», regressando depois à sua terra de origem e ao trabalho profissional. Falta entre nós quem faça esse trabalho de dinamização em ordem ao compromisso temporário.
3 – O dia das Missões dirige-se hoje também para os velhos países descristianizados, e já temos a trabalhar connosco vários padres vindos de África.
Trata-se de um doença silenciosa e complexa: enquanto os povos «pré cristãos» podem encontrar no Evangelho a novidade e a resposta que lhes falta, os países ditos cristãos já conheceram o Evangelho e parecem cansados dele. É a crise «pós cristã».
Porque é que o paganismo regressou à vida de tantos baptizados? Será que a fé não despertou encanto e a fortaleza nos cristãos? Ou não deu resposta aos desafios da sociedade e do progresso? A fé não terá sal e fermento suficientes para levedar o mundo moderno?
Na sua mensagem para este dia, o Papa refere-se à «busca exaltada do bem- estar, do lucro fácil, do sucesso a qualquer preço». Isto é, as pessoas colocaram baixa a fasquia da vida: as famílias deixaram de rezar, baptizaram os filhos por inércia social e o percurso catequético foi apressado, não criando raízes profundas, e abandonaram a Missa de Domingo e a frequência das festas cristãs do Natal e da Páscoa. Os netos acabam por se colocar à margem da Igreja, delapidando a herança cristã.
Nos anos em que estive à frente da diocese senti nitidamente sinais desse cancro, sobretudo na altura dos crismas e nos meses de férias. No mês de Agosto nunca celebrei crismas pelo perigo de encontrar jovens vindos da emigração que não tinham qualquer prática religiosa nos lugares da sua residência habitual e, nas férias, pela pressão dos avós e dos vizinhos, eram arrastados para a lista dos crismandos. A orientação que lhes dei é que deviam ser crismados nas terras de residência habitual, recebendo aí a respectiva formação e dando testemunho da fé pela prática cristã. A fé não pode ser entendida como um produto regional português que se consome em casa dos avós durante as férias.
4 – O processo de laicização infiltrou- -se subtilmente no interior da Igreja. Em 2009, ao receber os Bispos do Brasil na visita ad limina, Bento XVI disse-lhes que «nos decénios posteriores ao Concílio, alguns interpretaram a chamada «abertura da Igreja ao mundo», não como intensificação do zelo missionário no mundo, mas como cedência às modas do mundo. Palavras como liberdade, igualdade, solidariedade esvaziaram as comunidades cristãs da mística cristã. Para agradar aos que não vinham, deixou de se falar de certas verdades fundamentais como a eternidade, a fé, o pecado, a graça, os sacramentos e os novíssimos, e muitas comunidades fervorosas viram partir defraudados e desiludidos muitos dos seus membros».
Esta severa advertência do Papa é um alerta para as dioceses europeias onde certos pastoralistas e intelectuais cristãos desorientaram o povo colocando a simpatia acima do apelo à conversão, a crítica ao Papa cima da fidelidade ao magistério pontifício, a opinião pessoal acima da doutrina oficial, a liberdade acima da disciplina, as relações humanas acima da oração, as actividades sociais acima dos sacramentos.
O dia missionário é também uma oportunidade para reevangelizar esses sectores.



