Não há futuro sem os mais velhos

Se o tempo da velhice já é por si o que é, também é verdade que a família e a sociedade têm a responsabilidade de o tornar mais saudável ou mais espinhoso.

Não sei se estamos a fazer tudo para que os mais velhos tenham uma velhice proveitosa e digna, sejam valorizados e apreciados, amados e estimados, muito por culpa de um modo de vida egoísta e comodista em que vivemos e de uma sociedade que valoriza excessivamente o rendimento e esconde os frágeis, e onde a família está a deixar cair a sagrada tradição de todos olharem uns pelos outros até ao normal fim da vida. O esquecimento, a solidão e o abandono estão a ser a triste sina de um bom número de velhos. Na Ásia e em muitas culturas africanas, há um respeito venerável pelos mais velhos das famílias e da comunidade. Na Europa, sede de progressos civilizacionais e dos direitos humanos, condenamos os velhos ao desprezo e à irrelevância social. 

Temos de mudar de atitude para com os mais velhos. Um crime civilizacional que estamos a cometer atualmente é separar as gerações. Os netos passam pouco tempo com os avós, salvo as felizes situações em que isso ainda acontece, os mais novos não sorvem a memória, a experiência e a sabedoria valiosa dos mais velhos. É uma perda irreparável para a consistência e a harmonia da sociedade e das famílias, sobretudo num tempo que dá a primazia à formação tecnológica, científica e técnica, mas onde faltam de forma gritante a educação básica, os valores humanos, sociais e espirituais. Dizia há dias a escritora Alice Vieira: “os avós ensinam coisas que os pais não ensinam” e o Papa Francisco escreveu num tweet: “onde não há cuidado com os idosos, não há futuro para os jovens”. A Comissão Episcopal do Laicado e Família não pode deixar de concluir: “os avós são um tesouro. Uma sociedade que não protege, não cuida, não admira os mais velhos, está condenada ao fracasso”.

Há que fomentar três atitudes fundamentais para com os mais velhos: em primeiro lugar, respeito profundo, por serem pessoas humanas com a mesma dignidade que as outras, a idade não diminui a dignidade, e pela sua caminhada de vida; depois admiração, pelo muito que trabalharam e lutaram pela família, pela terra ou pela sociedade; por fim, valorização da sua memória e experiência de vida, tesouros imprescindíveis para a solidez e o enriquecimento da vida, dando-lhes mais importância e intervenção na vida familiar e social, na vivência de uma velhice ativa e positiva, válida e fecunda.

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